terça-feira, 14 de dezembro de 2010

O "fim"

09 meses escrevendo, quem diria. Eu consegui!! :D
Bom, desde o começo deixei claro que alguns dos textos já estavam prontos antes d'eu começar o blog, então isso acabou deixando as coisas mais fáceis - pelo menos por um tempo, hehe.

Foram 276 textos:

* 59 Microcontos
* 116 Poesias (entre estas, um soneto torto)
* 13 Poetrix
* 32 Crônicas
* 05 Haicais Guilherminos
* 15 Contos
* 01 Trova
* 04 Microdísticos
* 03 Minitrovas
* 09 Poesias em outras línguas
* 01 Quadrinho
* 11 Poesias de versos livres
* 02 Letras de músicas
* 01 resenha
* 03 artigos
* 01 postagem inicial, que classifiquei como Romance.

Que orgulho de mim!

O blog vai permanecer no ar, mas agora é hora de tirar férias!
Até breve!

Microconto/59



Ele tocou a mão esquerda dela, exatamente no dedo onde ficava a aliança.
- Então, você se casou mesmo?
- Sim.
- E o que está fazendo aqui comigo?
- Tentando fingir que não sou casada.
Ele sorriu. Sabia que tinha hora pra acabar, mas não se importou.
- Tudo bem. Vou te ajudar a fingir então.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Poesia/116

Quando eu escrevi aquelas cartas

Quando eu escrevi aquelas cartas,
mandei para longe mensagens importantes
Disse que sentia saudades
Contei as novidades
ou iniciei uma conversa
(sem pressa)

Quando eu escrevi aquelas cartas,
meu corpo se tornou papel
E viajou em aviões, navios e caminhões
Para saudar meus destinatários
(amigos-destino)

Quando eu escrevi aquelas cartas,
de alguma forma abracei meus afetos
E, antes mesmo que alguém me respondesse,
também me senti abraçada
(recebida, lida e amada).

domingo, 12 de dezembro de 2010

Poesia/115

Esse poema foi escrito no final de 2008. Na época, meu intento era de enviá-lo para uma promoção. O objetivo era escrever algo para o Papai Noel (!), dizendo porque você deveria ganhar uma viagem para... Bom, já não me lembro mais qual era o lugar! hahaha. Como estamos nessa época de Natal, avaliando o que fizemos ao longo de mais um ano e eu também estou sem opções de texto, decidi postar esse aqui. :)



Ao Papai Noel

Ah, Noel, meu caro
Bom menino é bicho raro
Mas te afirmo em bom tom:
Fui boa moça, sim senhor!

Na boemia, me esbaldei
Cantei, dancei, corri, gritei.
Em casa, fui bem melhor
Tomei vinho com vovó

Na faculdade, sensacional
No trabalho, ralei geral.
Afinal, nem só de vinho
Vive a sua boa moça!

Noel, meu caro, eu fiz de tudo
A meu modo, ganhei o mundo.
Talvez tenha falhado um pouco,
Mas ainda assim, fui boa moça

Boa não por ter bebido,
boa não por ter esquecido
Tampouco por ter sumido uns dias
Com o namorado! (Ops...)

Fui boa moça porque amei
Porque me entreguei sem pensar
Fui boa moça porque sonhei e
Fiz o que pude pra mudar

Mudar o mundo ao meu redor
e tenha certeza: pra melhor!
E agora, sem delongas,
Trago aqui a sua conta (nada mais que meu pedido)

Uma passagem de avião
Porque uma boa moça merece
Boas férias.
Pedido concedido? Ou não?


Fonte da imagem: Fórum Tíbia BR

sábado, 11 de dezembro de 2010

Poetrix/13

Juntos

Traço meus caminhos
Pelas tuas tranças
E voamos livres por aí.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Microconto/58

Na cozinha, uma sacola com pães velhos; no quintal, farrapos secavam no varal.
E no quarto, que também servia de sala, Maria ainda estava acordada. Piscavam as luzinhas de um pinheiro de plástico, comprado pela mãe no mercado popular.
Maria perguntava por que Papai Noel não chegava nunca para entregar seu presente de Natal. Ao seu lado, a mãe tomava coragem para lhe contar, na véspera do Natal, que para ela Papai Noel talvez nunca existisse.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Microconto/57

Amarrado e desesperado dentro da lancha, Jean ouviu Ingrid dizer:
- De todas as coisas que você me jurou, ao menos essa vai se cumprir.
Ela atirou. Depois, jogou o corpo no mar.
Jean morreu antes de cair na água, ao lado dela, exatamente como prometera.


(Como diz a canção: "Tu es foutu!").

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Poesia/114

Menina de tranças coloridas
Me nina com tua cantiga
Enquanto eu me distraio
Com teu cabelo multicor (amor)

Me ilumina
Com tua aura clara
Nasce pra mim, joia rara
Sol do meu dia
(poesia).

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Microconto/56

Na praia, Mirela estava se afogando. Rodrigo, corajoso, enfrentou o mar e a tirou de lá.
Já na areia, ele soprou ar para dentro dos pulmões dela.
Em volta, todos olhavam, na maior expectativa.
De repente, Mirela reagiu. Cuspiu fora um tanto de água, tossiu e tossiu. E aos poucos, foi se recuperando.
Quando conseguiu olhar para o homem que entrara no mar para salvá-la, atirou-se em seus braços, agradecida.
E daqueles braços não saiu de jeito algum. Foi mais que gratidão. Ela simplesmente se apaixonou por aquele que tinha lhe devolvido a vida.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Crônica/32

A visitante

Todo dia, palavras me cutucam, nervosas, agitadas ou simplesmente alegres e com vontade de se expor. Às vezes, estou de mau humor e não dou bola. Outras vezes, preciso falar delas, caso contrário, não me deixam em paz.
Hoje, uma palavra veio me ver. Conversamos bastante, essa palavrinha e eu. De tempos em tempos, ela me ronda. Eu a vejo me observando com seus olhos marejados e tento não olhar para ela, mas é difícil. Comentei sobre essa vigilância e ela me respondeu:
- É que você me chama constantemente com seus pensamentos. Você não sabia disso?
Eu imaginava.
Então, hoje eu tinha que escrever sobre essa palavra, para amaciá-la um pouco e para tentar me aliviar também.
Palavrinha esperta essa que me visita. Sabe tanto. Me fala de fatos, viagens, dias ociosos, noites enlouquecidas, amigos, lugares, canções, paixões, sonhos. E eu escuto, com a maior atenção, a saudade me contando causos e coisas de mim mesma.

(Para todas as minhas saudades).

domingo, 5 de dezembro de 2010

Crônica/31

Distrações

Uma vez, quase coloquei minha calcinha para secar dentro da geladeira.
Outra vez, quase comprei cevada ao invés de café e milho no lugar do feijão.
Cheguei perto de jogar minha escova de dentes no lixo.
Costumo esquecer de pôr as meias para lavar.
Também é costume esquecer de fazer o que me pedem. Preciso anotar, se não, a memória coloca outra coisa no lugar - ou deixa um vácuo mesmo.
Meu finado peixinho Moby Dick - que Deus o tenha - morreu justamente porque esqueci de limpar o aquário e de dar comida a ele... por uma semana! É por isso que há tempos não me arrisco a ter outro bicho de estimação.
Ah, também já fiz confusão com nomes, incluindo gênero: chamei um rapaz de moça; tudo bem que se parecia muito com uma, entretanto eu podia ter tido mais atenção. Felizmente, o rapaz não se ofendeu. Pelo contrário: riu.
É, eu sempre fui meio distraída; digo "meio" porque não posso ser considerada um completo desastre por causa dessas eventos, principalmente porque muitos ficaram no quase.
Mas de todas as minhas distrações, considero a pior o fato de não dizer a algumas pessoas o quanto eu gostava (e gosto) delas - de estar com elas, de conversar com elas e tudo mais. Aliás, dizer eu dizia, mas acho que ainda assim, não fazia isso constantemente. E a gente sabe que às vezes não basta só nossa presença; palavras também se fazem necessárias.
Agora que estou longe de muitas dessas pessoas é que penso no assunto. Tento manter contato, mas sei que ainda falho bastante.
Bom, pelo menos ninguém pode me acusar de esquecer aniversários. Nisso eu não falho. Precisava compensar meus deslizes com algo, não é?
E assim, vou levando a vida: distribuindo sempre parabéns e com a metade da cabeça no mundo da Lua.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Poesia/113

Desejo que a vida não te seja breve,
Tampouco pesada;
E que tenha a beleza de uma alvorada.

Que te ensine uma coisa a cada dia
E não deixe nunca de te mostrar a poesia
Que existe por aí.

Te desejo que essa mesma vida,
essência que nos habita (às vezes meio escondida),
te dê força pra encarar as manhãs
de mais um ano que se inicia agora pra ti.

(Para Lu)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Quadrinho/01

Infelizmente, não disponho de tempo e nem de scanner para postar aqui todos os meus quadrinhos. Portanto, creio que postarei apenas esse, que scaneei em meu antigo local de trabalho (será que eu era feliz e não sabia?).

Os personagens Homem Capacho e Mulher Malvada foram criados em meio às aulas da faculdade, lá pelos idos de 2005. Esse quadrinho é de 2009.
Eu os desenho, de vez em quando. Desenhava mais na faculdade. É, sempre foi difícil manter minha atenção...

Hoje em dia, quando os desenho, mostro para Eduardo e ele ri. Outro dia, me perguntou se a Mulher Malvada era inspirada em mim. Lhe respondi:
- É o contrário: eu sou inspirada nela.
(mas a quem ficou curioso: esclareço que sou apenas uma versão mais light, hahaha).

Voltando aos quadrinhos...
Talvez nem todos partilhem da mesma opinião, mas pelo menos para mim, quadrinho também é literatura. Através de desenhos, com ou sem balões de fala, é possível criar uma história.


quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Microconto/55

Formou-se químico. Foi trabalhar numa indústria.
Mas um dia, decidiu trocar de profissão e se tornou chef de cozinha.
Aos que perguntaram o porquê da mudança de ramo, disse:
- Não mudei tanto assim. Cozinhar também é química. E o melhor é que esse tipo de química me dá muito mais prazer.

(Para todos aqueles que arriscam mudanças em nome da própria felicidade). :)

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Microconto/54

Notebook ligado durante a noite.
Ele no banho, ela bisbilhotando.
De repente, um e-mail se sobressai:
era tudo que ela precisava ler, para ter certeza.
Ele ainda amava a outra, que já não o amava.
Não ter contado, isso sim, fora a pior traição.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Microconto/53

Fim de tarde naquela praia bonita, onde ele tinha prometido levá-la várias vezes.
Assim que chegaram, ela logo correu para ver a praia, enquanto ele trancava a porta do carro. Quando ele chegou até a areia, ela estava sentada, nua, olhando para o mar. Tinha tirado tudo: a roupa, o biquíni e até mesmo o par de brincos e a aliança.
- Mariana, você enlouqueceu? Pode aparecer alguém!
Ela sequer se mexeu. Há quanto tempo seu corpo e sua mente não se sentiam livres... Há quanto tempo cedia apenas à vontades alheias... Há quanto tempo... Tantas coisas... Então, quebrando a expectativa do noivo, que a olhava boquiaberto, Mariana disse apenas:
- Silêncio. Estou tentando respirar.


(às vezes, é preciso se despir de tudo - literalmente - para se encontrar ou se reencontrar um pouco consigo mesmo).

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Microconto/52



Despediram-se debaixo de um temporal.
Enquanto André falava, Olga ouvia e chorava. Mas era um choro contido, que misturado à chuva, não o deixou perceber o quanto ela estava infeliz.
E foi assim que André se foi, triste por ter que partir e triste também por achar que não era amado.

Fonte da imagem: Nightmaremon album

domingo, 28 de novembro de 2010

Microconto/51

Sonhou que tinha perdido as chaves. Ao regressar para casa, teve que quebrar a janela. Ao entrar, deparou consigo mesmo, deitado na cama. Reconheceu-se, claro, mas não pôde deixar de perguntar:
- Quem é você?
- Eu sou você - respondeu o que estava na cama, com um sorriso irônico. - Mas eu não perdi as chaves.
Confuso, tentou entender porque tinha se tornado dois. Então, acordou.
E confuso permaneceu. Pois, ao acordar, não sabia quem tinha se tornado: aquele que tinha perdido as chaves (de si) ou aquele que, senhor de sua morada, descansava despreocupado sobre a cama.

(Há uma citação dela que aqui se aplica).

sábado, 27 de novembro de 2010

Microconto/50

Começou limpando o guarda roupa. Depois, passou para a mesa de cabeceira.
Logo, estava limpando a casa inteira. Não só limpava, como também trocava as coisas de lugar. Dentro de si havia uma imensa vontade de mudança e de se livrar de tudo que não fosse mais necessário.
E foi assim que, findo o trabalho dentro de casa, ele se mirou no espelho e procurou por algo para mudar em si mesmo. Olhou, olhou e de repente seus olhos se fixaram num ponto. Foi então que, com muito esforço, ele começou a abrir a mente e a limpar seus pensamentos.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Microconto/49

Descoberta

Dormiu com uma dúvida e acordou com uma certeza: o caminho duplo era o que lhe interessava.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Crônica/30

Olhares - parte V

Chegou falando comigo em italiano e eu me esforcei para compreendê-lo e falar também. De repente, em bom português, ele disse:
- Sou de Minas Gerais.
Eu ri, ele também.
Disse que morava na Itália há 70 anos e comentou:
- É muito tempo, não é?
Em seguida, confessou:
- Eu tenho 79 anos já.
Antes de ir embora, me aconselhou a treinar o italiano:
- Se não tiver com quem conversar, faça como eu: fale sozinha. Pode ser na frente do espelho.
E se despediu olhando fundo para mim, com aqueles olhinhos verdes. Disse, quase num murmúrio:
- Me desculpe, mas você é tão bonita...
Eu sorri, agradecida e surpresa. E vi que dentro daqueles olhos, de repente, brilhava forte a juventude de uma vida inteira.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Microconto/48

Desde a mudança para aquele prédio, Rafael ouvia sempre um violino no apartamento ao lado. Noite após noite, dormia embalado pela música suave que a janela vizinha lhe soprava.
Uma noite, porém, o violino não se manifestou.
Rafael não conseguiu dormir. Então, sem pensar muito, foi até a porta vizinha e apertou a campainha. Quando o vizinho abriu a porta, com uma expressão viva de solidão, Rafael disse apenas:
- Eu me importo.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Microconto/47

Por um momento, o chão sumiu e Vívian não sabia se iria cair ou flutuar. Na dúvida, agarrou-se mais forte àquele que estava à sua frente.
Depois, abriu os olhos nervosamente. Ele lhe estendeu a mão.
Sorridente, ela imitou o gesto e seguiram ambos de mãos dadas, já fora da escola.
Ele não sabia ainda e ela demoraria anos para contar, mas aquele tinha sido seu primeiro beijo.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Microconto/46

Estela amava, mas não era amada.
Imaginava que a separação seria mesmo inevitável, mas ainda assim, insistia no relacionamento.
Numa noite, ele voltou tarde mais uma vez e ela iniciou uma discussão, que ele encerrou aos berros, alegando que precisava dormir, pois teria que acordar cedo no dia seguinte.
A contragosto, ela se calou. Mas por dentro, não calou as mágoas. E começou a chorar. Chorou como nunca tinha chorado antes.
Quando amanheceu, ele se surpreendeu: ela não estava na cama. Procurou-a pela casa e nada. As roupas continuavam lá, tudo estava igual. Mas ela, onde estaria? Enquanto pensava, sentou-se na cama e só então percebeu o colchão molhado de um lado só. Estela permanecia ali, mas aos poucos se evaporava; tinha se desfeito em lágrimas por aquele amor.

domingo, 21 de novembro de 2010

Microconto/45

Tinha o dom de rascunhar a vida. Descobrira por acaso e o dom se tornara também seu vício.
Bastava escrever o que gostaria de tirar do seu passado e voilà!, estava feito.
Foi bom, durante um tempo. Mas um dia, desistiu de mudar as coisas. Viu que a vida, sem erros, sem memórias e com todas aquelas manchas de rasura, tinha simplesmente perdido a graça.

sábado, 20 de novembro de 2010

Microconto/44

Pôr do sol no Arpoador e Humberto estava lá, como um bom admirador. O lugar estava cheio. Casais se abraçavam, crianças corriam para lá e para cá, turistas tiravam fotos.
No meio desse cenário, ele a viu. Estava em pé numa das pedras, com os braços abertos. Logo, ele começou a fitar aquela moça de longos cabelos castanhos, em seu vestido azul celeste.
Ela parecia concentrada, mas subitamente virou-se e o viu. Humberto assustou-se, não esperava ser notado. Por um momento, ela abaixou os braços e lhe sorriu. Humberto sorriu de volta. E foi nessa hora em que ela tornou a abrir os braços e levantou voo, plena, por sobre o mar.
Humberto olhou ao redor para ver a reação das pessoas. Entretanto, ninguém além dele tinha visto aquele anjo voltando para o céu.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Microconto/43



Priscila não relaxava nunca - ou pelo menos não se recordava de ter feito isso alguma vez.
Tentou de tudo: happy hour com amigos, massagens e terapias diversas; nada funcionava.
Até que um dia, um amigo deu-lhe uma sugestão. Disse para Priscila começar com algo simples: espreguiçar-se ao acordar.
No dia seguinte, após a conversa com seu amigo, Priscila acordou e se espreguiçou. De repente, viu espantada quando seus braços alcançaram o teto e suas pernas atingiram a porta do quarto. Esticava-se, esticava-se sem parar.
Logo, ela se viu obrigada a sair de casa, pela falta de espaço. Estava relaxada, afinal. Talvez relaxada demais, mas o que isso importava no fim das contas?
Depois desse dia, Priscila nunca mais deixou de se espreguiçar. Ao mesmo tempo em que tinha finalmente conseguido relaxar, notou feliz o quanto tinha também deixado de se encolher.

Fonte da imagem: Quero enfeitar você

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Microconto/42



Linda e distante.
Ele a admirava, a amava, mas ela só dedicava seu tempo a pessoas importantes, cheias de posses. Ele a chamava para tomar sorvete, ela sempre negava, inventando pretextos diversos. Enquanto isso, ele levava sua vidinha sem gosto. Ela era o sabor que ele não podia ter.
Passados os anos, reencontraram-se. A vida dele estava diferente. Ele se tornara um senhor. E agora tinha uma vida melhor, graças a seus esforços. Já ela, antes linda e distante, era agora uma senhora amável e falante.
Ele a reconheceu dentro daqueles olhos verdes; ela, o sabor que, apesar de tudo, ainda lhe faltava. Feliz por finalmente ter a atenção dela, ele não teve dúvidas: chamou-a para tomar um sorvete. Depois de 50 anos, ela aceitou.

Fonte da imagem: Blog Cem Dormir

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Microconto/41



Eu venho sempre aqui, nem sei desde quando. Você também? Nossa, como nunca nos falamos antes?
Sabia que eu posso ser qualquer pessoa? Posso ser tudo aqui, até eu mesmo. Mas ser eu mesmo é a última coisa que quero.
Você quer ver uma foto minha? Ah, sei, antes você quer saber como eu me chamo, claro... Prazer, meu nome é Virtual.

Fonte da imagem: Megaclick Informática

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Microconto/40



Quando acordou, a Vida continuava ali.
A Morte esteve apenas de passagem.

(À minha inspiração - Augusto Monterroso).

Fonte da imagem: Fazada

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Microconto/39

Ela o esperava, ansiosa.
Um dia, ele lhe bateu à porta. Era um vendedor. Mas ela o despachou, disse que não precisava comprar nada.
Ele insistiu. Apresentou-se como seu colega de trabalho e lhe convidou para um café. Mas ela alegou cansaço como desculpa."Deixa pra próxima".
Ela começou a reclamar que ele não aparecia. Ele não sabia como dizer que ela é que não o enxergava.
Até que um dia, depois de ser professor, vizinho, amigo do amigo e dentista, ele se cansou. Decidiu que se ela o queria tanto por perto, teria que aprender a reconhecer de onde ele poderia surgir.
Mas ela não conseguiu tal feito. E terminou seus dias achando que nunca tinha recebido a visita do amor.

domingo, 14 de novembro de 2010

Poesia/112

Alice
Por um triz
Eu sei
A gente deixou de ser feliz

Foi bom por um momento
Que durou uma semana ou um ano
Mas agora vejo
Que tudo não passou de engano

Eu não reguei as flores
Você vivia cheia de dores

Eu não lavei a louça
Você de repente ficou surda

Eu dormi no sofá
Você desandou a reclamar

Eu fui por ali
Você seguiu por lá

E a gente um dia
Sem encanto
Sem tato
Desistiu do verbo amar.

sábado, 13 de novembro de 2010

Crônica/29

Rotina

Acordo e me arrumo rapidamente. Tenho destino certo e uma missão: chegar no horário marcado.
Para isso, enfrento uma batalha; uma batalha por espaço. Além do esforço envolvido em minha missão, também preciso contar um pouco com a sorte, e a sorte, se você não sabe é assim: um dia está com você, no outro dia, não está.
Entro num ambiente fechado, com pouco ar e muitas pessoas. Gente que me empurra, me pisa, e, claro, me aperta por todos os lados. Todos. Mal posso respirar.
Chego ao meu destino, salva, mas não muito sã. A mente já está cansada e o dia mal começou. Eu estou com cheiro de outras pessoas. Meu cabelo está desarrumado, minhas roupas estão amassadas. Acabo de ter mais uma experiência única e um tanto íntima com um bando de pessoas desconhecidas.
Algumas horas após o embate, é chegado o momento de fazer novamente o que faço todos os dias (para chegar ao trabalho e para voltar ao conforto do lar): pegar mais um metrô lotado.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Haicai Guilhermino/05

Não sou valente
Mas ao estar contigo
Vou pra frente.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Crônica/28

Olhares - parte IV

Morava na rua e perambulava sempre pelo bairro Benfica (em Fortaleza) e suas adjacências. Quando eu trabalhava com telemarketing, sempre o via na hora de voltar para casa. Ele costumava ficar no ponto de ônibus em frente ao Cefet, na Avenida Treze de Maio. Eu sempre o encarava e vice-versa. E isso me chamava a atenção, porque eu nunca tinha visto um morador de rua que encarasse as pessoas do jeito que ele encarava.
Certa vez, lhe ofereci um chocolate – que ele educadamente recusou. Noutra ocasião, ele me sorriu – aliás, nesse episódio paira certa dúvida, pois não sei se o sorriso foi direcionado a mim ou se ele sorriu por outro motivo. Por várias vezes eu o via parado em alguma esquina, com os olhos distantes, perdidos.
Uma noite, aconteceu o inesperado: ele falou comigo. Eu passei e ele murmurou “boa noite”. Fiquei tão surpresa que não consegui responder. Parecia tão simples, era só responder a mesma coisa, mas a minha voz não saiu. Engraçado é que eu sempre quis que ele puxasse assunto comigo e então, quando ele o fez, eu não consegui falar nada.
Algum tempo depois, eu estava voltando do trabalho, tarde da noite, e ele me parou para pedir fósforos. Falei que não tinha. Ao chegar em casa, não tive dúvidas: fui até a cozinha, peguei alguns fósforos e um doce de goiaba e voltei ao lugar onde o tinha visto. Ele ainda estava lá, quietinho. Ao me ver, disse novamente:
- Você tem um fósforo?
Respondi:
- Agora eu tenho.
Junto com a caixinha, lhe entreguei o doce - e dessa vez ele não recusou minha oferta.
Às vezes, ele aparecia de barba feita, cabelo cortado e um aspecto mais limpo, como se tivesse tomado banho recentemente. Um dia, comentei com uma vizinha sobre o sujeito e ela me esclareceu:
- Ah, eu sei de quem você está falando. É o Nem. Ele tem família, tem casa, mas prefere a rua. Dizem que foi por causa de uma mulher que ele ficou assim.
Depois que ela me contou isso, fiquei um tempão com o olhar perdido - talvez como o do Nem - pensando no que um amor não correspondido é capaz de fazer com a vida da gente.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Crônica/27

Carta a um ex-amor

Às vezes, vejo nossas fotos e nos vejo também, mentalmente. Eu te procuro e te encontro, mesmo que você não saiba, afinal existem várias formas de se encontrar alguém.
E assim, eu te vejo e te encontro na minha mente e te digo coisas embaralhadas; coisas que agora tento colocar em ordem nesse escrito.
Pra começar, eu te vejo do jeito que gostava - sem bigode, sem barba e com aquele cabelo louco. Você parecia o Freakzóide e eu adorava isso. Gostava do seu cabelo, do seu cheiro, do seu beijo e do seu gosto. Como é possível que eu nunca tenha te dito isso?
Na verdade, eu sei como é possível: eu era uma boba. Ainda sou, é verdade. Mas só agora consigo reconhecer o quanto tive receio de me entregar através das palavras e mesmo através de gestos.
Talvez não valha mais a pena falar sobre o assunto e lembrar disso, mas é passado, já aconteceu, então que mal tem? Que mal há em lembrar de um par que não deu certo?
Falando nisso, demos certo ou errado? Bom, estive pensando e acho que demos certo separados e errado juntos. Melhor: demos certo juntos, por um tempo.
Ah, e que tempo! Foi um período tão gostoso! Lembro de coisas que você disse, de coisas que eu disse e sei que já não me recordo de tudo, pois a memória voa, tal qual o tempo. Ah, e quantas coisas eu deixei de te falar, quantas!
Mas não escrevo para falar disso. Tampouco para narrar lembranças. Hoje, ambos estamos unidos a outras pessoas, mas não apago você da minha mente. Porque ex-amor, por mais que se tente, não dá pra apagar. E isso finalmente me remete ao maior objetivo da carta, que é o de te confessar, o de te dizer o que eu nunca ousei dizer - que um dia eu te amei.

(Para N).

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Conto/15

Ao ver o garoto, Glória se perguntou quantos anos ele teria. 14? 15, talvez. Não mais que 16. As mocinhas logo se insinuaram. Todas queriam o rapazinho como cliente. Mas foi para Glória que ele apontou.
Glória, com seus 42 anos, era a dona do cabaré. Era bonita e ainda tinha um corpo desejável, mas não tanto como suas funcionárias. Ela espantou-se quando ele disse que sim, era mesmo ela quem ele queria. Mas logo pensou: "Bobagem. Ele deve querer uma mulher mais velha só para saber como é". Tentou ainda dissuadi-lo da ideia, porém ele estava irredutível.
Então, ela cedeu. O rapaz era uma graça, poderia até ser divertido. "Vem comigo", ela chamou.
Ao final, Glória ainda estava surpresa. Afinal, por que um garoto como aquele tinha ido a um cabaré e escolhido justamente a mulher mais velha do lugar? Ela não resistiu e perguntou:
- Rapaz, posso saber porque você me escolheu? Você viu as mulheres mais jovens...
- Eu não queria mulheres mais jovens. Queria alguém como você. Mas as mulheres mais velhas não me dão crédito. Aí, eu soube desse lugar e de você. Tinha que vir. Não era só pela experiência... Era por gosto mesmo. E gosto não se discute, Glorinha.
"Glorinha". Há anos ninguém a chamava assim. Era verdade, gosto não devia ser discutido - especialmente se a tinha tratado bem, tinha pago sem reclamar e mais: tinha feito com que ela se sentisse mais leve... e mais jovem.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Poesia/111

Procura-me por aí
Quando eu tiver que partir

Procura-me no vento que sopra
No orvalho ou na aurora

Na música ou nas páginas de algum livro
Na Lua cheia ou nas nuvens
(elas sempre foram meu melhor abrigo)

Procura-me em telas coloridas
Em cartas de amor e afins

Procura-me dentre os girassóis
Ou entre lençóis cor de marfim

Procura-me com paciência
E em tudo isso, poderá me ver

Pois mesmo quando eu tiver partido
Dentro de quem me ama, eu irei viver.

domingo, 7 de novembro de 2010

Poesia/110

O amor pode ser tão inconstante
E também pode ser nosso
Mesmo que por um instante
Basta tentar

Então, vem!
Me dê a mão
Vamos voar
Tirar os pés do chão

Você tem medo
E eu também!
Mas e daí, meu bem...
E daí...

Então, vem!
Põe em mim
Teu coração
Que o meu já está em ti

Vem, me diga sim
Vamos viver
Levantar vôo
Num balão
Pegar a estrada

Vem
Me dê a mão
Que eu te quero tanto
Como meu par
O bem querer é o que
Iremos conjugar.

sábado, 6 de novembro de 2010

Poesia/109

Eu quis um amor todo grande

Eu quis um amor todo grande
E todo cheio de clichês
Eu quis que fosse importante
Como um grande amor tem que ser
Não queria hora marcada
Nem o tédio de ver tv
Mas pra você:
Tudo ou nada.
E eu não sei me prender
Meu corpo é seu e de todos
O meu querer é tão vão
Mas minha poesia insistente
Ganhou seu coração
Era sorvete na praça,
Graça junto ao tesão
Você desejava sininhos
E eu, o mundo nas mãos
Não podia mesmo dar certo
Paixão ardente não mantém o tom
E o que eu lhe digo, entretanto,
É que enquanto durou
Foi tão bom!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Poesia/108

As tardes
Sem mãos dadas
Solitárias
Me abraçam
Me agarram
Farejando companhia.

As tardes
Tão caladas
Tão sombrias
Me encaram
Me sorriem
Farejando simpatia.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Conto/14

Júlia queria porque queria ser escritora. Porque era seu grande sonho, porque não se imaginava fazendo outra coisa, porque era o que queria da vida. Mas faltava-lhe um detalhe crucial: intimidade com as palavras.
Tentou de tudo para que estas lhe viessem e se tornassem suas amigas. Primeiro, seguiu os conselhos de quem já escrevia e passou a ler bastante, para aumentar o vocabulário e criar suas próprias ideias. Depois, passou a dedicar uma parte de seu tempo ao exercício da escrita.
Mas não adiantava: por mais que Júlia chamasse, as palavras não respondiam aos seus apelos. E quando vinham, tudo que ela escrevia não lhe parecia bom o suficiente. Ela queria sempre mais e mais palavras. E, embora seus amigos tentassem incentivá-la, a verdade é que eles mesmos não a achavam exatamente uma pessoa com o dom da escrita.
Então, Júlia apelou. Valia tudo para que as palavras se aproximassem. Inclusive, rituais estranhos e obscuros, que lhe custavam caro. Os amigos achavam que ela tinha enlouquecido, tamanha era sua obsessão. Sabiam que aquilo ainda acabaria mal. Tentaram, então, dissuadi-la da fixação que era escrever. Porém, era tarde demais.
De todos os preços, o maior foi pago quando, depois de todos os seus esforços, as palavras se cansaram dela e decidiram lhe aparecer todas de uma vez só.
Primeiro, ela não conseguiu controlar a mão, que escreveu freneticamente por uma noite inteira. Depois, quando a mão já não respondia a nenhum estímulo, as palavras lhe invadiram a garganta e ela falou por horas, sozinha, até perder o fôlego. Por último, ela já não conseguiu mais respirar. E assim, perto da inconsciência provocada pela falta de ar, foi que Júlia percebeu que as palavras não costumam vir para quem as quer, mas para quem elas escolhem. Por não ter se conformado, Júlia recebeu a fúria das palavras e ali, em seu pequeno apartamento, foi sufocada por elas, junto a uma pilha de rascunhos.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Trova/01

Brava, você suspira
Então, eu lhe trago flores
Foi só mais uma briga
Encerrada com odores!


(E viva todas as formas de reconciliação).

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Poesia/107

Hoje todos choram seus mortos
Com lágrimas, velas e flores
Choram e rezam por eles
E também para aplacar suas dores
De saudade e de amor
Hoje todos se recordam de cada partida
E tão triste quanto chorar por quem se foi
É ver quem ficou seguir morto em vida!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

domingo, 31 de outubro de 2010

Poesia/106

Um alfinete para ele
Outro para ela
Um despacho na encruzilhada
Junto, uma vela
Costurado com linha preta
Um nome na boca do sapo
E outro nome, besuntado em mel
Descansa perto do porta retrato
As bruxas vivem pelo mundo
Lançando seus feitiços para todos os lados
Há quem não tema e há quem corra
E também quem as procure
Com medo de perder o namorado
Os feitiços são variados
Tal qual as bruxas, que podem ser feias ou belas
Mas o pior feitiço poucos sabem
É aquele olhar torto na janela.

sábado, 30 de outubro de 2010

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Microconto/38

Após de muito tempo, ele lhe bateu à porta.
Ela atendeu surpresa. Ofereceu-lhe um café. Ele recusou.
Ofereceu bolo, chá com torradas. Ele continuou recusando as ofertas.
Até que ela, decidida, disse:
- Espere um minuto.
Foi ao quarto, pegou o monte de envelopes amarrado com uma fita vermelha. Jogou no colo dele e disse apenas:
- Sirva-se.
E ele assim o fez. Devorou todas as palavras com avidez. Há muito não se servia de cartas de amor.
Depois, como ela já esperava, ele foi embora, satisfeito. Mas dessa vez, para nunca mais voltar.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Poesia/105

Eu te amei
Você me amou
Mas ainda assim
Nós nos deixamos
E o que era presente
Pretérito se tornou.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Microconto/37

Laila se arrumou e foi para o bar. De uma das mesas, um homem ainda jovem e bem vestido começou a observá-la. Ela não poderia demonstrar ares de paquera, estava ali a trabalho. Mas os olhares se cruzaram, uma, duas, três vezes. Laila pensou: "Será que ele já se deu conta do que eu estou fazendo aqui?".
Então, ele se aproximou:
- Olá. Meu nome é Fernando.
- Laila - e ela apertou-lhe a mão meio nervosa, pensando em porque tinha dito seu verdadeiro nome. Antes que ele criasse alguma expectativa diferente da esperada, ela disse:
- Cobro por hora e cada hora custa cinquenta.
Ele não disse nada. Ela continuou, para quebrar o gelo e também porque não sabia mais o que poderia falar:
- Sabe, hoje é o meu primeiro dia... - E seu olhar ficou vago, distante.
Fernando chamou-a de volta à realidade quando retrucou:
- É o meu primeiro dia também.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Poesia/104

Terremoto

Acima de mim, já não importava se era noite ou dia
Abaixo, a terra tremia
E ao meu lado, felizmente
Percebi que aquela mão ainda vivia.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Poesia/103

Silêncio


Silêncio, meu ombro amigo
Agora é minha companhia
Silêncio, sente aqui comigo
Pois se foi minha alegria
O amor acabou
Numa madrugada fria
E você se instalou como devia
Já outras vezes eu notei
A sua presença forte
Antes de um primeiro beijo
Ou mesmo diante da morte
E quando acaba o Carnaval
Ou qualquer outra festa
Ali está você tão banal
É tudo o que nos resta
Silêncio, me sirva de abrigo
Por um minuto ou uma hora
Silêncio, agora eu lhe digo
Não se atreva a ir embora
Em tantas datas lhe encontrei
Meu bom e velho conhecido
Confesso: só quando você grita
É que me incomoda estar contigo.

domingo, 24 de outubro de 2010

Poetrix/12

A entrega

Eu choro, torço, rio
Quem me vê, não sabe o que vivo
Sabe apenas que estou lendo um livro.

sábado, 23 de outubro de 2010

Microconto/36

Pedro queria cuidar de algo. Era mais uma tentativa de ocupar-se com algo rotineiro.
Poderia ter um filho, mas não se sentia à vontade com a ideia, achava-a radical demais para ele. Também não gostava tanto assim de plantas. Decidiu, afinal, que queria ter um bichinho de estimação.
Mas o que arranjar? Um cachorro? Comum demais. Barulho e bagunça na certa. Um gato? Pêlos pela casa toda. Miados na madrugada. Um peixe? Muito sem graça. Um pássaro? Sim, era isso mesmo: queria um canário.
A ave foi adquirida. O canário era bastante inquieto. Cantava, talvez mais por tristeza ou tédio do que por vontade. Mas essa inquietude tão visível era óbvia: uma gaiola não era o seu lugar.
Não demorou muito para que Pedro, que era inquieto por natureza, ficasse ainda mais agitado com a afobação do pássaro. Então, tomou duas decisões. A primeira foi a de libertar o canário, que logo voou para longe. A segunda foi a de libertar-se, criando para si uma nova trajetória e tratando de adquirir suas asas pelo caminho.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Microconto/35

Tinha voltado como se fosse uma outra pessoa. Não por vontade, mas por necessidade. E estava difícil se readaptar à vida de antes.
Nos dias que passavam lentamente, ia tentando fazer as mesmas coisas, agir igual. Os pais preocupavam-se, pensavam: "Será que teremos nosso filho de volta, por inteiro?"
Aí, Nancy apareceu. Nancy, que tinha se mudado para a cidade vizinha antes dele ir para a guerra; Nancy, por quem seu coração batia mais forte. Ela tinha aparecido para dizer que estava feliz porque ele tinha voltado, que sempre tinha acreditado que ele voltaria, que tinha sentido saudades... E quando ele a abraçou e ela se deixou beijar, ele soube que a vida, apesar da guerra, continuava. Enfim, ele sorriu e se sentiu em casa.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Poesia/102

À noite
Eu não resisto
E te procuro
Para outro adeus

Tropeço
Por fim mergulho
Mergulho fundo
Nos olhos teus

E o meu pobre coração
Implora compaixão
E roga a Deus
Para ter forças

E não mais te procurar
Quando outra noite chegar

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Microconto/34

Era domingo e Julinho chorava. Chorava pela fome e pelo luto. A mãe ralhava:
- Ou come o almoço ou fica com fome.
Mas Julinho se manteve firme. Seu senso de justiça - ainda que ele nem soubesse o que seria isso - não o deixou. Jandira, sua melhor amiga, jazia na mesa, degolada e cozida entre batatas. Jandira, a galinha que ele tinha adotado como bicho de estimação, havia sido o almoço naquele dia.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Microconto/33

Dalton levou o filho, George, para cortar o cabelo. Para distraí-lo, o cabelereiro perguntou:
- O que é que você torce, garoto? Flamengo?
- Não.
- Já sei. É Vasco!
- Não.
- Fluminense?
- Não.
- Ah, não me diga que torce para um time de fora do Rio!
- Não! Não!
- Me conte para quem você torce então.
O menino foi preciso. Tinha apenas quatro anos, mas sabia já ver a magia do futebol. Respondeu:
- Torço pela bola.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Microconto/32

No primeiro encontro, Milena olhou-se no espelho. Olhos pintados, faces rosadas, batom caprichado, rosto ansioso.
Um mês depois, tinha ainda a aparência ansiosa de quem espera o passar das horas para ver o namorado.
Mas o tempo passou e um dia, quando Milena se olhou no espelho, viu que seus olhos e sua boca eram os do namorado. Depois disso, a cada vez que ela se mirava, havia algo a mais dele.
Mas o pior dia foi quando Milena se olhou, quase sem querer, e viu que não havia nada; nem ela nem o outro. Simplesmente não havia mais ninguém ali.

domingo, 17 de outubro de 2010

Conto/13

Na estação, a moça e a mala esperaram uma eternidade, mas o trem, esse não podia esperar. Entre a possibilidade de tomar o trem e não saber nunca se ele estava apenas atrasado ou perder o trem e esperar - talvez em vão - ela escolheu a primeira opção.
Alguns anos depois, o viu, por um desses acasos da vida. Aparentava tensão. O que ela enxergou foi um homem preocupado, carrancudo. Tão diferente do que era! Ela parou um instante, para pensar se iria ou não falar com ele. A fim de disfarçar, decidiu comprar um sorvete.
Nesse momento, ele a viu. Aparentava uma certa ansiedade, devia estar esperando por alguém. Tinha na mão o sorvete que acabara de comprar. Tão bela! Por que ele não tinha ido embora com ela? Ah, sim, ele não poderia esquecer nunca o motivo. Na mente, vieram as lembranças: a esposa chegando em casa mais cedo, justo no dia em que ele planejava deixá-la; a notícia da gravidez; ele pensando quão incapaz seria de abandonar a mulher grávida. Deveria ter acabado com o casamento assim que se apaixonou por outra. Torturava-se por isso e pelo rumo que as coisas tinham tomado. Era tarde... E naquele momento, aquela por quem tinha se apaixonado ali, tão perto. Deveria falar com ela?
Do outro lado da rua, ela olhou pelo canto do olho. Para que falar com ele, afinal? De que adiantaria uma explicação? Isso não mudaria e nem resgataria o passado; talvez só a fizesse sofrer de novo. Tinha que seguir em frente.
Com esse pensamento, ela se foi. Na outra calçada, ele a viu partir. Seguiu-a com o olhar, mas a vontade era de correr atrás dela, dizer o quanto sentia, falar que ainda a amava. Entretanto, ele achou que de nada adiantaria. E, enquanto seu corpo continuava ali parado na rua, seu coração ia embora, junto com o que restava daquela moça que um dia esperara na estação.

sábado, 16 de outubro de 2010

Crônica/26

Tem uma coisa em mim que dorme. Dorme quando vou e volto do trabalho, dentro do metrô lotado; dorme no final de cada mês, quando o dinheiro é curto. Essa coisa, essa parte de mim que dorme, pede para dormir, pois dormindo sonha e sonhando vê de forma diferente; vê da forma que gostaria que fosse.
Mas há outra parte, a que fica acordada. Essa parte sente e sabe que sonhar é importante, mas quer ficar acordada. Pede e exige ficar acordada, porque assim pode fazer algo concreto sobre os sonhos; sabe que pode tentar torná-los realidade.
Acredito que todos possuímos essas duas partes, em maior ou menor grau. E acredito mais ainda que todos precisamos manter os dois lados ativos. Precisamos que ambos estejam vivos, pois sem o 'lado realista', a vida perde a garantia. E sem sonhos, ela perde o sentido.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Poesia/101

As manhãs são frias pra chuchu
O amor é doido pra dedéu
Mas que loucura boa é essa
Quando estou contigo, estou no céu!

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Poesia/100

Ouça-me
Hoje eu quero apagar o meu amor por ti

Afaste-se
É hora de esquecer o quanto eu fui feliz

Deixa-me
Tua amizade não cabe no meu coração

Mas antes de partir, conta-me
Como tirar o teu cheiro do meu colchão.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Microconto/31

Thiago abriu os olhos lentamente. Tudo era branco, insuportavelmente branco. O cheiro ao redor era familiar e horrível: cheiro de hospital. Aos poucos, tentou se mexer, mas o corpo, fraco, já não respondia.
Mais um minuto e ele estranhou o silêncio. Sentiu-se só. Onde estavam as enfermeiras? O médico? Pior: onde estavam os amigos, os colegas de trabalho, a família? Aquela doença que o matava também lhe impusera a solidão.
De repente, sentiu um toque caloroso. A mão que também tinha acabado de acordar lhe segurava com força. Thiago moveu um pouco a cabeça. O suficiente para dizer ao homem a quem amava:
- Que bom que você continua aqui...

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Poesia/99

Meu relógio tá maluco
Mas não precisa de cuco
Pra se acertar
Meu relógio tá caduco
Mas não precisa de remédio
Pra se consertar
Meu relógio tá impreciso
Feito o mundo
Perdeu o siso
Escuto um cuco
O capturo
E o relógio, indeciso
"Bota o cuco, tira o cuco
Desse bicho não preciso
Só preciso de descanso
Tira a pilha
Para o pino
Vai dormir
E esquece o desatino"

Desencano.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Poesia/98

Meu amor não quis a flor
Nem por isso senti dor
Meu amor me abandonou
Pois sua afeição acabou
Do fervor dantes vivido
Agora nada restou

Seu coração congelou
Sua boca se amargou
Nem sei porque
Meu amor se exasperou!

Nosso caso terminou
Mas sinceramente, meu amor
Isso pouco me importou
Pois da angústia já cansei
E a paixão já nem sei
Se no meu âmago perdurou!

domingo, 10 de outubro de 2010

Microconto/30

A música estava alta e a luz era fraca, típica das boates de striptease. Humberto caminhou entre as mesas e entre as pessoas de pé até chegar mais perto do palco, onde a luz era melhor. Havia dirigido por três horas até aquele lugar, depois de receber do detetive a informação pela qual esperara um mês inteiro.
Então, ele a avistou. Ela entrou usando um sobretudo preto, caminhou até a barra de ferro, e começou a dançar e a tirar a roupa. Quando a viu, ele quis subir em cima daquele palco e tirá-la dali, mas assim que ela começou a se despir para aquele bando de desconhecidos, ele ficou tão surpreso e admirado. Acabou desistindo.
Antes que o show terminasse, voltou para casa. Na manhã seguinte, ela chegou. Era o dia da folga de Humberto e ele ainda dormia. Ao acordar, viu que ela tinha lhe preparado o café. Ele sentou-se à mesa, meio sem jeito, tinha que falar, precisava falar:
- Preciso te confessar uma coisa.
- Sim...
Após segundos que pareceram uma eternidade, Humberto respirou fundo e disse:
- Te amo e continuo querendo passar o resto da minha vida com você.

sábado, 9 de outubro de 2010

Microconto/29

Dante queria chegar o mais rápido possível ao aeroporto. Tinha um encontro.
Ao chegar, fez o check-in e em seguida rumou para o compromisso.
Foi até o banheiro e olhou-se no espelho. E ali, de mochila nas costas, encontrou-se consigo mesmo, embora já fosse outro. Naquele banheiro encontraram-se o Dante que sonhava botar o pé no mundo e o Dante que agora era um viajante.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Poetrix/11



Prossigo

Não tenho eira nem beira
Mas mundo afora
Sigo sem fronteiras.

Fonte da imagem: Agenda Digital

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Poesia/97

Shangri-lá

Eu não vou vou ali
Ou acolá
Vou longe, muito longe
Até onde a vista alcançar
Eu vou para Shangri-lá
Não sei como vou chegar
Se mapa eu sei que não há
Vou na fé para encontrar
Esse lugar que me cabe toda
E que se chama Shangri-lá
Eu vou de mala e cuia
Para nessa terra aportar
Lá meus sonhos terão vida
É lá onde eu quero ficar
Nesse lugar onde terei asas
Nesse lugar que é Shangri-lá.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Poesia/96

Lia
Feita de luz
Estrela guia
Que me seduz
Lia
Que lê meus olhos
Transpira poesia
Por todos os poros
Lia
Moça bonita
Te ver sorrir
Já me vale a vida.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Microconto/28

Não havia o que comemorar. Não tinham empregos, não tinham documentos, tampouco tinham esperança de que algo mudasse. Mas todos celebravam e eles queriam pelo menos um pouco daquela sensação de euforia, ainda que por uma noite apenas.
Com o pouco dinheiro que cada um arranjou, compraram algumas cervejas e dois frangos. Improvisaram uma mesa com caixotes e, ali debaixo do viaduto, comemoraram, como todo mundo, a chegada de mais um ano.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Microconto/27

Começou pelas mãos - não era assim que devia ser? Ela o olhava apenas, e deixava que ele a tocasse.
Quanto tempo sem tocar sequer as mãos de uma mulher! Quer dizer, podia pagar, tinha como pagar, mas não queria chegar mais a esse ponto, de pagar por algumas horas de prazer seguidas de uma sensação de vazio.
Mas agora, ali estava ela, a solução para seu problema. Ela se deixava beijar e se deixava despir, tentadora, despudorada...
Depois, enquanto descansava ao lado dela, ele mal podia conter a alegria. Ela continuava ali, não havia ido embora como as outras. Era sua companheira, daquele momento em diante. E para fechar a noite com chave de ouro, decidiu batizá-la. Abraçou mais uma vez a boneca inflável que o encarava e disse:
- Olívia. Você vai se chamar Olívia.

domingo, 3 de outubro de 2010

Crônica/25

A melhor coisa desse domingo
Quem conhece pelo menos um pouco meus gostos literários, sabe que um dos meus autores favoritos é o uruguaio Eduardo Galeano. E, porque eu queria falar com ele de alguma forma, decidi lhe enviar uma carta.
Então, nesse domingo, ao abrir minha caixa de email, deparei com uma mensagem dele. Como posso descrever o que senti quando vi que Eduardo tinha me enviado um email? Alegria, muita alegria.
Esses dias, eu estava mesmo pensando o que teria acontecido pra que ele não tivesse (ainda) me respondido, fosse com outra carta, com um email ou, quem sabe, com sinais de fumaça. Eu me sentia um pouco triste e ansiosa por uma resposta. Em minha carta tentei expressar a minha admiração em poucas palavras, coisa difícil para mim. E por que a falta de resposta? Eduardo teria me achado invasiva? Teria acontecido algo com a carta? Será que eu teria enviado para o endereço errado? Ora, havia a possibilidade disso acontecer, afinal eu havia conseguido o endereço dele na Internet (!).
Mas, como me explicou Eduardo, ele voltou de uma longa viagem e só então leu minha carta. E sua resposta chegou. Veio num dia chuvoso e cansado; veio tão agradável, tão bonita! Veio, sem dúvidas, como a melhor coisa desse domingo.

sábado, 2 de outubro de 2010

Microconto/26

Está escuro. Mas eu sinto uma certa agitação... Tenho lembranças vagas me rodeando. Falas, cenas. "Ser ou não ser?", onde ouvi isso antes? Ou fui eu quem disse? Minha memória está fraca, confusa, quase inexistente.
Agora, a agitação aumenta. Vozes, algo me arremessa. Uma força grande. "Empurra!", é a palavra que mais escuto.
E de repente, uma luz ao longe. Eu me aproximo dela, levado. A palavra palco não me sai da cabeça. É isso, acho que é isso: estou na coxia, indo para o palco! Mas quais são minhas falas? Não há tempo, terei que improvisar. É agora, é agora! É hora do espetáculo! As cortinas se abrem, a luz bate na minha cara, uma plateia me encara alegre e eu choro... Sou carregado por algumas pessoas, tonto. Tudo é tão rápido! Mas no meio de todo o caos, posso ouvir um homem dizer:
- Parabéns, é um menino.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Poesia/94

Meus braços
Se abrem certos
Para o teu abraço
Meus olhos
Se fecham ternos
Para o teu beijo
Meu corpo
Se aninha todo
Para o teu afago
E meu coração
Se entrega louco
E segue ao teu lado.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Poesia/93

Eu olhei naqueles olhos miúdos
Que me encaravam insistentes, amiúde
Eu me fundi com aquele corpo moreno
Que me recebeu todo sereno
Eu me assustei quando meu coração bateu mais forte
Para em seguida pensar no quanto eu tive sorte
De encontrar alguém com quem adoro ficar a sós
Parei de ser só eu, para ser também nós.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Microconto/25

Estavam pai e filho na sala. O pai lia o jornal, enquanto o filho falava sem parar:
- Pai, quando eu crescer, quero ser piloto de avião!
- Não, não... Quero ser dentista!
- Ou astronauta...
O pai ouvia, calado, sem desgrudar do jornal. De repente, cansado de não ser ouvido, o filho disse:
- Pai, não sei direito o que quero ser... Mas sei que não quero ser como você.
O pai largou subitamente o periódico e seguiu-se um silêncio perturbador. O filho não ousava olhá-lo e mantinha os olhos na tv. De repente, o pai disse:
- Desculpa não te dar atenção, filho... Desculpa mesmo. Sabe de uma coisa? Você, quando crescer, pode ser o que quiser. Mas eu, quando crescer, sei que quero ser igualzinho a você.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Poesia/92

Era Setembro
Eu bem me lembro
Quando ela veio de mansinho
Primeiro, uma flor desabrochou
Depois, cantou um passarinho
E aí, ela se fez notar
Com tudo que podia
Uma profusão de cheiros, cores, brilho e simpatia
E eu disse ao meu amor:
"Veja só quem chegou para fazer uma visita!"
E ele então me sussurrou:
"Não vá sentir ciúme, mas que Prima mais bonita!"

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Microconto/24

Romance
Trancou-se em casa e decidiu: vou escrever um romance.
Passaram-se horas, dias, semanas. Ele fazia tudo mal: dormia, comia, descansava, tomava banho - tudo era mal feito. A única coisa que importava era escrever.
Não se sabe se foi no terceiro ou no décimo dia, mas o certo é que seu pé direito sumiu. Depois, foi a mão esquerda, com braço e tudo. E assim, ele foi sumindo, aos poucos, enquanto o romance crescia.
Quando restava apenas a mão direita a escrever, o romance ficou pronto. E a mão que repousava sobre as últimas páginas também sumiu. Ele todo havia sumido, mas ao mesmo tempo continuava ali. Ele havia se tornado o romance e vice versa.

domingo, 26 de setembro de 2010

Poesia em outra língua/09

Finally the Spring is here!
I feel it through this smell in the air
And because of little wind blowing and playing with trees
I feel the Spring when I hear birds singing in every morning
And I feel it stronger when streets are full of sounds and I don't want to come back home
I just leave my pillow behind
Because the Spring deserves my eyes, my hands, my smile and my soul.

sábado, 25 de setembro de 2010

Microconto/23

Num fim de tarde, Diego estava sentado com a bisavó, numa colina de onde dava para avistar toda a cidade.
A bisavó, pensativa, olhava as nuvens que passavam. De repente, disse:
- Já reparou como a gente é que nem nuvem?
Diego olhou, sem entender, e a bisa lhe explicou:
- Mesmo que queira ficar parada, a nuvem se move, nem que seja só um pouquinho, porque o vento a leva pra lá e pra cá. E às vezes, ela segue para lugares onde talvez nem queira ir. Entretanto, o vento a carrega assim mesmo.
Diego ouvia atento, enquanto a bisavó comparava:
- Já a gente pode querer ficar parado, mas a vida não dá trégua. E ela, como o vento, leva a lugares onde talvez a gente não deseje ir. E um dia... Um dia, a nuvem se desfaz ou chove. A gente se vai, morre. A nuvem passa, a gente também. Mas, olha só, Diego, a nuvem evapora depois que chove e volta a ser nuvem. E a gente morre, mas volta...
Diego não esqueceu nunca aquela tarde.
No dia seguinte, a bisavó partiu e, embora ela estivesse bem velhinha, foi uma surpresa que abalou a todos. Diego se lembra bem que, no meio do velório, contou a todos, cheio de certeza:
- A bisa choveu. Não se chateiem, que logo logo ela evapora pra ser nuvem outra vez.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Microconto/22

Glória, viajante por natureza, se apaixonou pelo vento e foi correspondida.
O vento levava seus medos pelos ares. Juntos, assistiam ao pôr do sol. Ele sempre lhe sussurrava belas palavras e rodopiava folhas e flores ao seu redor.
Mas o vento não podia preencher a cama de Glória e ela, para aplacar o desejo, arranjou um amante.
Na primeira noite em que Glória dormiu com o amante, as janelas estavam fechadas, por precaução.
Mas de nada adiantou. O vento, furioso, abriu as janelas com força, bufou e depois foi embora.
Não houve perdão para essa noite.
Agora, o vento passa pela mulher que ama sem olhá-la e finge que não a escuta. Ela, por sua vez, insiste. E em meio ao desespero das horas sem o vento, coloca homens e mais homens em sua cama. Ela espera que assim ele retorne e a olhe de novo ou sussurre mais alguma coisa, qualquer coisa, nem que seja uma última vez.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Microconto/21

Começou com uma plantinha, um cacto. Depois, mais alguns vasos. Em seguida, veio o gato. Por fim, quando todos achavam que o próximo passo de Bia seria ter um filho, ela decidiu que sim, iria mesmo se dedicar a cuidar de mais um ser vivo: ela própria.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Microconto/20

Durante o dia, era Virgínia. À noite, era Eva.
Virgínia ajudava os pobres, sempre que podia. E se atormentava por conta da vida que Eva levava e pelo fato de que ela não queria saber de caridade.
Então, com enorme força de vontade, Virgínia passou a fazer com que Eva também ajudasse os menos favorecidos. Era sua forma de se sentir menos pecadora. Virgínia ajudava com sopa; Eva matava outro tipo de fome. Ela reservava uma noite por semana para ajudar com carne - sua carne.
Nessas noites, Eva não cobrava e os mendigos recebiam, ansiosos, um pouco de calor humano.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Microconto/19

Pedro estava sentado no metrô, quando a moça de vestido verde entrou no vagão e ele não viu mais ninguém.
Quer dizer, ver ele via, isso é só modo uma forma de dizer que a atenção dele, a partir daquele instante, era toda dela. Mas a moça, com sorvete na mão, parecia não notá-lo ou então fingia muito bem que não o via.
Pedro pensou em como chamar-lhe a atenção, sem muito alarde e sem assustá-la. Cantada ao pé do ouvido? Fora de questão. Um "oi, qual o seu nome?" cairia bem? Nos dias de hoje, era capaz dela ignorar apenas ou inventar logo que tinha namorado. Mas e se tivesse? Ele não queria saber, queria arriscar, isso sim. Um bilhetinho? Mas escrever o que? Nome e telefone apenas? Que coisa mais sem graça, vazia.
Depois de pensar alguns minutos, ele decidiu: um poema. Escrever nunca tinha sido seu forte, mas para uma mulher interessante sempre é possível dizer palavras bonitas. E ele escreveu. Mais abaixo, colocou nome e telefone. Caso contrário, ela não teria como encontrá-lo.
Pedro saltou na estação seguinte. A moça recebeu o bilhete com um olhar desconfiado, achou que era alguma propaganda.
Depois, Pedro esperou, esperou e esperou. Horas, dias, semanas. Levou um tempo, mas enfim o telefone tocou. E depois de rejeitar a oferta de um novo cartão de crédito, Pedro desligou e voltou para a solidão dos dias difíceis.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Poesia/91

Mulher, eu já não sei
Se vou embora
Ou se te espero

Lá fora, a noite é fria
E você é
Tudo que quero

Mulher, eu danço há horas
Com várias damas
Um só bolero

Talvez seja um engano
Mas eu te quero tanto
Por isso me desespero

O tempo não passa
As damas acham graça
Enquanto eu traço meus tortos passos

Mulher, elas sorriem
Por que não sabem
Que eu te espero

Eu, zonzo, embriagado
Só penso em ti
Enquanto danço e canto só um bolero!

(Para Roger, que eu sei que é doido por um bolero!)

domingo, 19 de setembro de 2010

Haicai guilhermino/04

Sopra o vento
Que leva para longe
Meu pensamento.

sábado, 18 de setembro de 2010

Microconto/18



Longe de sua terra natal, num dia sem afazeres, Nina chorava suas saudades. Para alegrá-la, decidiram levá-la para a praia. Mas Nina continuou chorando. Disse: "É tudo tão lindo, mas esse mar não é o mesmo, não é o meu". Replicaram: "Chegue mais perto do mar, toque nele". E Nina, agachada, colocou pés e mãos dentro da água salgada e o mar lhe confidenciou: "Menina, eu também sou seu mar". E Nina finalmente entendeu e sorriu. Entendeu que os nomes eram diferentes, que a distância era grande, mas que as águas se misturavam e que aquele mar à sua frente também era o seu.

Fonte da imagem: Quem tem pés, visita

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Poesia/90

Eu levo agora o sorriso estampado
De quem anda lado a lado
Com a felicidade
Caminho pela cidade
Que é cheia de cores, de formas, de sons
E tem o tom que cai bem para nós dois

Eu tenho hoje o sorriso escancarado
Daqueles bonitos como um céu estrelado
Sem nuvens, fumaça ou poeira
Caminho por aí toda faceira
Contente por estar com meu amor
E sorridente eu sigo porque ele voltou.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Poesia/89



Distrações

Para o gato, um novelo
Para o cachorro, um osso
Para a criança, um fim de semana inteiro
Para o pássaro, um longo vôo

Para o coração, um amor
Para o rei, seu cavalo
Para o branco, qualquer cor
Para o velhinho, uma partida de baralho

Para o stress, uma viagem
Para mim, a Literatura
Para o sério, uma bobagem
Para uma noite de luar, poesia pura.


(Nota: Se a Literatura é uma distração, não significa de forma alguma que ela seja menos importante para mim. Pelo contrário: o que eu mais quero é que ela, mais do que distração, se torne o trabalho de uma vida inteira).

Fonte da imagem: Hot Frog

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Crônica/24

Olhares - parte III

Dia claro, luz intensa que me incomodava. E eu havia esquecido os óculos escuros. Era hora do almoço e eu tinha pressa, como sempre. Meia hora para comer requer que você vá correndo até o restaurante - e volte correndo também.
E no meio do caminho, nos cruzamos, aquele senhor e eu. Restavam a ele apenas uns poucos cabelos grisalhos. Seu andar era calmo, parecia que ele possuía todo o tempo do mundo.
Quando passamos um pelo outro, ele me olhou com seus grandes olhos azuis e eu o encarei com meus grandes olhos castanhos e a primeira coisa que me veio à mente foi: "Conheço esse olhar".
Mas eu tinha pressa e não podia parar de caminhar. Arrisquei ainda um olhar para trás e lá estava ele, parado na calçada e no tempo, me mirando. Acho que ele também sabia, de alguma forma, que nos conhecíamos. Entretanto, eu não voltei para perguntar de onde nem de quando. E fiquei sem saber se foi nessa ou em outra vida que já cruzamos nossos olhares.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Poesia/88

Mudanças

Eu decidi mudar o mundo
Então, um sábio disse para mim
"Se você quer mesmo mudar o mundo
Comece primeiro por ti".

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Poesia/87

Ando sóis

Ando sóis
Como quem nada quer
E o vento sempre me sopra
Aos braços de alguma mulher
Eu ando sóis
Não posso parar
Embora comida farta e um bom catre
Sejam tentações para me fazer ficar
Mas eu ando sóis
Preciso partir
E assim, viver feliz
Com meu eterno ir e vir.

domingo, 12 de setembro de 2010

Poesia em outra língua/08



It doesn't matter
If you don't have wings
I know you can fly
Fly away from here
Or from any other place
So, take my hand
Come with me
Let's jump together
We will fly
You will see.

Tradução:
Não importa
Se você não tiver asas
Eu sei que você pode voar
Voar para longe daqui
Ou de qualquer outro lugar
Então, pegue a minha mão
Venha comigo
Vamos pular juntos
Nós voaremos
Você vai ver.


Fonte da imagem: Laços azuis

sábado, 11 de setembro de 2010

Poesia/86



A dona do jardim
Não me deixa colher suas rosas
Nem mesmo aparar o capim
Me olha torto quando eu passo
Mas eu acho que ela gosta de mim
Gosta e não assume
Não sei o que a faz ser assim

Fecha a janela quando me vê
E só torna a abri-la para me dizer
Que em suas rosas não devo mexer
Mas mal sabe ela
Que em polvorosa
As rosas me pedem para que eu as colha
E que entregue todas para essa moça
Que eu sei que no fundo gosta de mim.

Fonte da imagem: Little sweet secrets

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Microconto/17



Ela desligou a cafeteira, mas não se desligou.
Parecia um sonho: aquele rapaz simples, com a barba por fazer, havia aparecido durante a manhã. Há 6 meses ele sempre ia ao bar, pedia um café e a olhava longamente enquanto bebia. Nada mais que isso.
Mas naquele dia ele respirou fundo para falar: "Quero um café e quero saber se você se casa comigo".
No dia seguinte, ela lhe deu a resposta. Isso foi há 15 anos. Helena já não serve mais cafés naquele bar. Desde que disse "sim", Helena se deu conta de que príncipes de contos de fada existem, mas por vezes aparecem disfarçados. O dela tinha surgido como um vaqueiro que gostava mais de leite do que de café, mas comprou várias xícaras só para ver se ela reparava nele.

Fonte da imagem: S.O.S - Dicas e truques

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Poesia em outra língua/07



Mi cuerpo está calentado
Por el cobertor devido:
Tus manos, tus brazos, tus besos
Y por todo tu cuerpo querido.

Fonte da imagem: Caderno de sentimentos

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Microconto/16



O preço do Tempo

Sem saber qual era o preço do Tempo, Loreta fez um pacto com ele. E em comunhão com a dona Morte, o Tempo a deixou por estas bandas terrenas por mais de um século.
Quando chegou aos cem anos, Loreta tinha descoberto qual era, afinal, o preço do Tempo. E de longe, os bisnetos podiam ouví-la praguejar contra ele:
- Me levou vários... Um por um, ano após ano. Às vezes, mais que um por ano... Por que fez isso comigo? Como pôde???
Ela falava de seus mortos, entes queridos com quem o Tempo não fez acordos. E vê-los partir doeu, doeu sempre, e aos cem anos, ela já implorava para ser levada também.
Até que um dia, Loreta também se foi. Se foi sem saber que apenas iniciaria outro tempo, mas dessa vez, sem acordo algum.

Fonte da imagem: Tethea

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Microconto/15



A loucura e a arte

Cecília morava no apartamento vizinho ao de um homem a quem chamavam de louco. O homem andava sempre desgrenhado, o olhar perdido. Às vezes, dava longas palestras sobre tudo e nada. As crianças lhe pediam dinheiro, que ele até dava, quando tinha, contanto que não o chamassem de louco.
Esse homem, o louco, mantinha um piano em casa. Em meio a jornais velhos e garrafas vazias, o piano era a sua única mobília.
Uma noite, Cecília ouviu música. O homem tocou majestosamente. Quando ele parou, pela primeira vez Cecilia pensou naquele homem, não como um louco, mas como um artista. Ou vai ver, ela pensou em ambos mesmo, pois dizem por aí que arte e loucura andam juntas, de mãos dadas.

(Baseado em fatos reais. Texto dedicado ao Seu Jefferson).

Fonte da imagem: Clave de Pi

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Poetrix/10



Borboleta

Começa larva, quem diria
Para depois voar por aí
Cheia de cores e poesia.

Fonte da imagem: Projamora

domingo, 5 de setembro de 2010

Poesia/85

Vento

Me leve por aí
Me faça voar pelos ares
Me guie e não me deixe cair
Mostre-me uns tantos lugares
Deixa-me dormir junto às estrelas
Enquanto deslizamos pelas nuvens
Tira do meu corpo a poeira
Prepara-me para visitar outros mundos
Me deixa ser tua companhia
Sussurra-me versos coloridos
Abrace-me com ousadia
E me leve sempre por aí, caro vento, caro amigo.

sábado, 4 de setembro de 2010

Poesia/84

Tudo que eu queria era ver o mundo.
Tudo que eu queria era jogar fora
O guarda chuva e o sobretudo!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Microconto/14

Noivinho

Faltava pouco para o casamento e os olhos do noivinho eram duas luzinhas que brilhavam, piscavam e se exibiam para todos.
Mas a noivinha fugiu com outro e as luzinhas se apagaram.
Muitas tentaram, ao longo dos anos, reavivar as luzinhas, mas de nada adiantou. Quando fugiu, a noivinha levou o anel de noivado, uma trouxa de roupas, algum dinheiro e, sem saber, tinha levado junto toda a luz dos olhos do noivinho.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Poesia/83

Eu ando
Percorro o caminho
E dentro de mim, ele entra
Pelos pés, de mansinho.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Microconto/13

Sede de amor

Chamava-se Pepe e estava ansioso pelos prazeres do amor. Suspirava, gemia, padecia porque queria amar. E por isso, corria atrás de qualquer uma que pudesse lhe dar amor: brancas, pretas e mestiças, lindas ou feias. Mas nenhuma delas lhe dava crédito. Nenhuma sentia por ele amor, simpatia ou simplesmente compaixão.
Pepe estava cansado, andava nervoso e cada vez mais queixoso. Até que alguém encontrou uma solução...
Pepe foi castrado e já não uiva mais. Através de seus culhões, lhe adestraram aquela sede, a sede que ele tinha de amor.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Poesia/82

"Opa!", ela disse.
E quem diria
Que aquela moça
Daria tal lição
Na minha mão boba!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Microconto/12



O brinco

Num dia que parecia ser como outro qualquer, Marcela perdeu um dos brincos. Ficou triste: o brinco tinha sido presente da avó, que já havia morrido. Marcela tentou consolar-se, pensando que era somente um brinco, coisa material apenas, e o mais importante é que guardava na mente as lembranças da avó. "Brincos vêm e vão", disse para si mesma.
Naquela noite, ao regressar para casa, viu algo brilhando em frente ao portão: era ele, o brinco perdido. Marcela levou o danado para dentro e concluiu que ele não havia se perdido, afinal. Assim como a avó, estava só dando uma voltinha por aí.

Fonte da imagem: Casamento e festa

domingo, 29 de agosto de 2010

Poetrix/09

Fim

Vamos nos desatar
Chega de nós
Nesses laços de amar.

sábado, 28 de agosto de 2010

Microconto/11

Quarenta anos, uma esposa, um par de filhos, muito tempo na mesma empresa.
Vida pacata, feliz aos olhos de fora. Mas ninguém enxergava sua inquietude diante da própria existência. E por várias noites, ele olhava antigas fotografias e pensava sempre em quem tinha deixado para trás: ele mesmo.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Crônica/23

Eu o vi através do vidro. Fui até ele e minha boca emudeceu, mas meu olhar disse: "Você vem comigo". E ele veio.
Então, eu comecei a (re) devorar esse homem, com quem nunca conversei. Eu o encontro sempre, já há algum tempo, por acaso ou porque o procuro. E ele pode ser, ao mesmo tempo, conhecido e desconhecido, novo e velho.
Ele não sabe ainda, mas sonho em apertar-lhe a mão, em Montevidéu ou em qualquer outra cidade; não importa, contanto que eu possa apertar a mão com a qual ele escreve. E também sonho, enquanto o leio, em dizer-lhe olhando nos olhos: "Obrigada. Obrigada por suas palavras".

(para Eduardo Galeano)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Poetrix/08

Por aí

Enquanto sigo, comendo poeira
Minha mente é meu Norte
Mas é certo que também conto com a sorte.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Poesia/81

Eu ando, corro, sorrio, falo
Rio, choro, grito e me calo
Me jogo, me freio
Me amo, me odeio
Sou assim toda feita de sensações
E assim como Vlad, enlouqueci minha anatomia
Formada toda por um só coração.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Poetrix/07

Na estrada

Sol a sol
Levo a casa nas costas
Tal qual um caracol.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Poetrix/06

Na banheira
No meio da espuma
Brincando entre bolhas
Flutuamos como patinhos na lagoa.

domingo, 22 de agosto de 2010

Poesia/80

Dois sóis

Calor em dobro
Somos nós
Juntos em nosso céu particular
(colchão de amar)
É sempre verão
Com dois sóis.

sábado, 21 de agosto de 2010

Poetrix/05

Galope diário

A toda brida
Sigo e vou
Cheia de vida e de amor!

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Poesia/79

Eu só sei sentir saudade
Quando me lembro de você
Versos logo me vêm à mente
Então, eu fico todo a mercê
Desse triste coração
Que teima em te lembrar
Que teima em te querer
Que teima em te gostar
E insiste em bater
Louco por você

Esse meu coração cego e louco
Manda em mim o tempo todo
A mente se abstrai por completo
Meu tempo fica todo incerto
E as mãos?! - essas trabalham apenas
Para te escrever
Para tentar te tocar
Para tentar te ter
Nas noites claras de luar
Enquanto a mente, coitada!, tenta em vão te esquecer.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Microconto/10

Saiu da sala sem dizer nada.
- Leo, espera! - mas ele não tinha mais nada a esperar.
Na rua, o sol lhe bateu no rosto sem piedade. A vida corria e todos tentavam acompanhá-la, apressados. Era uma típica manhã de terça-feira.
Ela o alcançou, tocou-lhe o ombro:
- Me perdoa?
- Tudo bem. Agora acabou. - ele disse - e deu-lhe as costas, disse que estava apressado. Mas a pressa era apenas a de ficar sozinho.
Seguiu cabisbaixo de volta para casa. No caminho, tentou pensar que aquilo era um alívio, que poderia respirar novamente, que não precisava mais viver com aquela dúvida. Não era o pai do garoto. Mas no fundo, gostaria que aquele resultado tivesse dado positivo.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Crônica/22



Coração despedaçado

Tive um sonho. Sonhei que meu coração se dividia em pedacinhos. Cada pedaço ficava com alguém que eu amava.
Primeiro, eu me sentia aflita, com medo, pensando que quanto mais gente eu amasse, menos coração teria. Porém, era justamente o contrário: quanto mais eu amava, maior ficava o meu coração.
E isso acontecia porque quando alguém me amava, também me dava um pedaço de seu coração. E assim, nunca faltava coração para ninguém. Era com os pedacinhos de outros corações que eu reforçava o meu e ia vivendo.
Se o amor acabava, o pedaço que eu tinha dado para aquela pessoa, voltava para mim. Eu via em meu sonho momentos em que deixei de amar algumas pessoas e via quando aqueles pedacinhos do meu coração retornavam, danificados, maltratados. Mas nada que o tempo não pudesse amenizar, consertar ou fazer esquecer.
No final do sonho, eu me sentia bem, afinal. Tinha dividido meu coração e ainda assim, ele estava multiplicado. Ele estava despedaçado, mas num sentido bom.
Assim eu gostaria que fosse durante essa minha existência. Dessa forma, meu coração poderia estar despedaçado depois de toda uma vida, mas estaria, com certeza, pleno e feliz.

Fonte da imagem: Mar de palavras

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Poetrix/04



Conclusão

Meu pé não fica bem no teu All Star
Mas é detalhe, então sei
Que ainda posso ser teu par.

Fonte da imagem: Essa é minha mesmo! ;)

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Crônica/21



Vozes

Nao sei se você sabe, mas se não sabe eu vou lhe contar agora: os livros falam. E não estou me referindo aos audiobooks apenas. Falo de todo e qualquer livro.
Através deles ecoam vozes. Vozes que existem ou existiram ou aquelas que foram inventadas; vozes que alguém tentou calar; vozes gostosas ou difíceis de ouvir. Há de todos os tipos e para todos os gostos.
Foi lendo que descobri que eu também poderia criar minhas próprias vozes ou falar para muitos usando esse meio de comunicação, que é tão importante na minha vida.
Toda vez que eu leio, dou vida a vozes, inventadas ou não, e me torno um pouco cada uma delas também. E dessa forma, não só dou vida a estas vozes, mas elas também têm o poder de me dar vida, cada dia mais e mais.

Fonte da imagem: Portal São Francisco

domingo, 15 de agosto de 2010

Poesia/78

Ele lá e eu cá
E a gente vai levando
Ele ali, eu acolá
E a gente vai vivendo

Uma hora, ele volta para o meu lado
Eu sei
Ou eu vou até o lado dele
Também

E assim, a gente segue
Nessa união atarantada
Mesmo em camas diferentes
A gente continua um par

Por ora, a distância
Mas logo logo
Lado a lado
E outra vez em nosso lar.

sábado, 14 de agosto de 2010

Crônica/20

Olhares - parte II

Quando nos conhecemos, ele tinha o olhar cansado, triste. Olhar de quem parecia que ia se matar a qualquer momento.
Eu puxei assunto com ele e ele me deu um de seus trabalhos. Esse homem, artista gaúcho, se chama Jones.
Durante o tempo em que morei na Glória, eu sempre o via. O mesmo olhar de tristeza. Eu pensava em lhe dar um oi, mas sempre deixava para lá.
E hoje, eu o vi. E ele me olhou. Ele me olhou, eu finalmente disse "oi" e ele me respondeu. Alguns minutos depois, passei pelo mesmo local e lá estava ele, parado com um de seus pássaros, feito de cartolina e arame. Um pássaro bacaninha que eu comprei para um amigo.
- Jones, eu me lembro que um dia você me disse que é gaúcho...
- Eu sou de Porto Alegre. Você também é?
- Não, sou do Ceará... Você não tem vontade de voltar para sua cidade?
- Só a passeio, mas não tenho dinheiro.
- Por que você não se cadastra para viajar de graça pela Base Aérea? Você desce em Canoas, que é perto.
- É, vou ver isso...

Os mesmos olhos tristes, a mesma expressão de cansaço. Eu sentia a solidão daquele homem tão viva, mesmo sem que ele me dissesse coisa alguma sobre isso. Quando parti, ele me disse: "Tchau, amiga. Vai com Deus". E me beijou a mão. E eu pensei na solidão daquele homem, assim como eu, um forasteiro no Rio de Janeiro. E, por um momento, a solidão dele se confundiu com a minha, que tem outro formato, mas não deixa de existir.

(TF* - 12/08/2010)

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Crônica/19

Escrevo estas linhas com vontade de chorar. Hoje é seu aniversário e não estou ao seu lado. Mas não posso chorar, não agora. Agora o que eu quero é lhe dar de presente algumas palavras.
Talvez com um certo atraso, eu preciso te dizer: comemore seu aniversário! Uma data assim tem que ser comemorada, multiplicada, dividida e festejada com aqueles a quem amamos e que também nos amam.
A cada aniversário, você não celebra apenas o dia em que veio ao mundo, mas também o ano que se passou - ainda que esse tal ano tenha sido uma bosta (desculpe o termo, mas é isso mesmo, haha!).
Você deve celebrar também o fato de estar vivo para enfrentar mais um ano que virá.
E comemore sua sorte: você chegou até aqui, fez amigos, amou, foi amado, trabalhou, se divertiu, errou, acertou e... sobreviveu. E isso, com certeza, não se deve somente a sorte, mas também a uma certa habilidade. Sim, viver requer jogo de cintura e sei que isso você tem.
Por fim, claro, celebre o poder de nascer outra vez. Pois, pelo menos para mim, quando o aniversário chega, temos esse poder dentro de nós: o de renascer e reiventar a nossa própria existência.
Minha vontade, hoje, era a de me jogar nos teus braços, ganhar teu precioso abraço como presente e também te presentear com meu abraço. Mas estou longe de ti fisicamente, então tudo que posso te dar são estas palavras e o meu desejo real de que o ano que se inicia hoje para ti seja pleno e cheio de aprendizado.
E mais: que você não deixe nunca de celebrar - não só o dia em que nasceu, mas a própria vida, tesouro a ser cuidado a cada dia.

(Para Hil)

P.S.: Yellow!

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Crônica/18

Esta é a primeira de uma série de crônicas que pretendo escrever sobre olhares que me marcaram ao longo dessa existência. Espero que curtam! TF*


Olhares - parte I

Tem olhares que eu capturei com meus próprios olhos. Às vezes, me dá uma angústia porque não pude gravá-los com uma lente... São sempre olhares marcantes.
Um desses olhares foi o do ser andrógino que me encarou numa noite carioca de 2008. Desci do ônibus na Praça Paris, na Glória, sem imaginar que um dia esse bairro me serviria de morada. Na época, fui olhar uma vaga e, no caminho, eu o vi. Estava parado à meia luz e usava um sobretudo. Quanto mais eu me aproximava, mais pensava que ele iria se virar e abriria o sobretudo para que eu olhasse seu corpo nu.
Mas o que ele fez me surpreendeu mais ainda: ele me encarou. Eu não saberei nunca traduzir bem aquele olhar azul. Era uma mistura de indagação com surpresa e também com audácia... Olhar que eu nunca mais vi na vida, nem naqueles olhos azuis e nem em outros olhos.
Não capturei esse olhar com uma câmera, mas ele está gravado na minha memória e toda vez que passo pela Praça Paris, eu me lembro dele e me surpreendo igual.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Poesia/77



Além da imagem

Um espelho mostra o que a gente é por fora
É este o seu intento
Mas bem que alguém poderia inventar outro espelho
Que mostrasse o que cada um é por dentro.

Fonte da imagem: Blog do Guilherme Ghizoni

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Microconto/09

Natal brasileiro

Uma estrela cadente passou. Ele fechou a janela; antes fez um pedido. Mas nem isso nem a cartinha adiantaram. Ao invés de uma bicicleta, naquele Natal, mais uma vez, Papai Noel o presenteou com um carrinho de plástico comprado na feira do Centro da cidade.
Triste, ele tentou se conformar e concluiu que Papai Noel devia passar tanta necessidade quanto ele.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Versos livres/11

Eu matei o dragão
Enfrentei até São Jorge
Só para te tirar
Do mundo da Lua

Depois comprei os anéis de Saturno
E me mudei de Marte para Vênus
Apenas para estar contigo
No mesmo planeta

Desbravei galáxias
E te presenteei
Mas cometas e estrelas
Não foram suficientes
Para nos salvar

Do buraco negro
Que se instalou
No lugar onde um dia
Existiu amor.

domingo, 8 de agosto de 2010

Poesia/76



Perdida em meus acordes
Já não toco como antes
Se começo com
Troco por num instante

Também sem querer
Troco o por MI
O que posso fazer
Se você me deixou assim?

Você que era meu SOL
Não quis mais minha companhia
Foi embora sem
E me deixou sozinha

E eu fiquei por
Ou talvez por ali
Sua voz a ecoar
"Agora, estás por SI"

E hoje eu sigo só
Com o meu violão
E sei que virou pó
Esse meu pobre coração.

Fonte da imagem: Arte de pensar

sábado, 7 de agosto de 2010

Poesia/75

Minha porta está fechada
Minha janela também
Mas meu coração insiste em ficar aberto
Daquela forma que ainda te convém.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Poesia/74



Dieta

Tentei dieta
Arroz integral, alface, tomate
Mas longe do almoço mirrado
A cabeça só pensa em chocolate!

Fonte da imagem: Maquiagem é uma arte!

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Poetrix/03



Viajante

Mochila pronta
Não te preocupa
Que do mundo eu dou conta!

Fonte da imagem: I've been there

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Poetrix/02

Universo à parte

No céu da tua boca
Minha língua é estrela cadente
Veloz e solta.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Conto/12

Princesa

Tinha longos cabelos, mas não era Rapunzel. Tinha lábios vermelhos, mas não era Branca de Neve. Tinha um quê de borralheira, mas definitivamente não era Cinderela. E era quem, então? Era Princesa, mas às vezes gostaria de ser plebéia.
Desde sempre, a Princesa pensava no que seria de sua vida. Para todos, ela deveria seguir o caminho que todas as princesas seguiam: encontrar um príncipe para casar, ter herdeiros e ser feliz para sempre.
Mas a Princesa não queria esse caminho. Na verdade, ela não sabia bem o que queria. Sabia apenas que queria mais, queria diferente.
E no palácio, rei e rainha só sabiam lhe cobrar. Diziam: “Você precisa se casar logo e construir uma boa família. Precisa encontrar um bom partido, que seja aliado de nosso reino”. E a Princesa se punha a pensar no que, afinal, seria uma boa família no conceito de seus pais. O Rei passava seus dias bebendo vinho e comendo sem parar. A Rainha tinha uma neurose em relação a segurança; estava sempre acusando alguém de querer lhe roubar as jóias, as roupas, a coroa e até o marido. E assim, seguiam. A única que realmente se incomodava com a vida que levava era ela, a Princesa.
Então um dia, lhe arranjaram um pretendente. E dois. E três. E todos a Princesa rejeitava. Até que surgiu um que não parecia ser tão inconveniente. Era um Príncipe belo, mas o que tinha de belo também tinha de mandão, como ela logo percebeu. E como gostava de reclamar! Enquanto que a Princesa reclamava querendo mudar as coisas, ele reclamava pelo simples prazer de reclamar, de falar mal de tudo.
Mas foi com ele que ela decidiu fugir. O Príncipe achava que ela queria fugir apenas por rebeldia. Não imaginava que ela queria fugir da vida dentro do palácio, de onde a mãe não costumava deixá-la sair.
Marcaram para uma manhã, assim que o sol raiasse. Era a hora em que ocorria a troca de guardas, o melhor momento para que o Príncipe aparecesse.
Todas as manhãs, a Princesa se debruçava em sua sacada, para admirar a vinda do Sol. Ah, o Sol! Tão imponente! Tão lindo! E todos os dias, a Princesa o cumprimentava.
E nessa manhã, não foi diferente. Há dias que o Sol notava a tristeza da Princesa. E nesse dia em especial, enquanto surgia no céu, ele viu como ela estava agitada com a fuga, mas também percebeu em seus olhos o quanto ela não queria ficar com aquele Príncipe.
- Bom dia, Sol... – disse ela.
E nessa manhã, ele finalmente respondeu:
- Bom dia, Princesa.
Surpresa com aquilo, ela lhe sorriu. Embaixo da sacada, o Príncipe dizia:
- Vamos, Princesa! Você quer fugir ou não?
Ela o encarou lá de cima e pensou como seria infeliz ao seu lado. Mas que outra alternativa havia? Deveria ir com ele! E, enquanto se indagava sobre o que fazer, o Sol lentamente lhe estendeu seu raio mais forte e disse:
- Pode pular.
E ela pulou.
A Princesa queria mais. Enquanto o Sol a levava consigo para longe dali, ela já ia imaginando que destino, afinal, iria seguir.
“O que vou ser com o sol? Mãe de nuvem ou de arco íris? Será que posso apenas me manter quente em seus braços?”
Como se adivinhasse seus pensamentos, o Sol a abraçou com força e disse:
- Princesa, agora, você pode seguir a rota que quiser, não precisa de mim. Mas pode ter certeza de que estarei sempre por perto, para iluminar os seus passos.
Ela sorriu com vontade, cheia de ansiedade. Enfim, estava começando a traçar com as próprias pernas o seu caminho.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Microconto/08



Um dia, a mulher viu o fogo pela primeira vez. E ficou maravilhada com ele.
Depois disso, noite após noite, ela ficava horas observando o fogo.
E o fogo, crepitando, a observava também.
Até que numa noite, decidida, ela pensou como seria ter o fogo dentro dela, todo dela, e o engoliu.
O fogo não ofereceu resistência, mas isso não evitou que a mulher queimasse as mãos e também a boca.
Mas o pior veio pouco depois. Embora ela estivesse feliz com o fogo dentro de si, seu corpo não estava bem. Ela amava o fogo, mas seu corpo o rejeitava.
E, de súbito, ela cuspiu o fogo de volta ao mundo, de onde ele jamais saiu novamente.
Entretanto, no âmago dela ficou uma centelha. Centelha essa que resiste, até hoje, dentro de cada mulher que veio depois dessa.

Fonte da imagem: Mulher Mosca

domingo, 1 de agosto de 2010

Poetrix/01

Inverno/Verão

No calor do Rio
Me basta o teu cobertor
Tecido de carinho.

sábado, 31 de julho de 2010

Haicai guilhermino/03



Dedilho pra ti
No meu velho violão
Amor em canção...

Fonte da imagem: Blogalize

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Poesia/73



O dia se passou tão claro
Claro como os olhos teus
E eu já não estava certo
De ter que te dizer "adeus"

E nesse dia tão bonito
Belo demais para uma despedida
Te olhei macio e então falei
"Meu bem, por favor fica".

Fonte da imagem: Jornalista Viajante

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Poesia/72



Cheiro

Compro essência de Alecrim
Tento Sândalo
Orquídea
E Jasmim

Não é Lavanda
E eu bem sei...
Também não é Almíscar
Esse eu também tentei

Experimento todos os aromas
Mas nada me agrada tanto assim
Como aquele cheiro gostoso
Que você costumava deixar em mim.

Fonte da imagem: Santo Google!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Microconto/07

Engasgado

Estirada preguiçosamente na cama, ela mantinha os olhos fechados, mas não estava dormindo. E ele sabia que ela só dormiria após sua ida. Olhou-a com ternura. Tinha vontade de beijá-la, mas ela não deixaria.
De repente, seus pensamentos o levaram para o dia da festa de casamento, quando ela lhe disse, pela última vez:
- Desista dela e desse casamento. Fique comigo.
Mas ele titubeou. Sempre titubeava.
Então, ela abriu os olhos e disse:
- Cento e cinquenta.
Ele pagou, encarou-a como se quisesse dizer algo. E queria, mas ela levantou-se rapidamente e logo lhe abriu a porta. E ele saiu engasgado, querendo falar como se sentia infeliz por ter escolhido a irmã errada.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Extra! - parte 03

E saiu a entrevista que o Toinho, da Livraria Blooks, fez comigo para o site deles.
Tem foto e tudo! Ê! Me senti até gente! Hahaha.

Pra dar uma olhada, é só acessar o link a seguir: Bate papo com Tatyana França

Versos livres/10

Reforma ortográfica

O voo mais belo ainda é do pássaro
A geleia ainda tem sabor
A ideia conserva o encanto
O bilingue continua falando duas línguas
E quem é tranquilo, tranquilo segue

Mas não tem jeito, não...
Eu ainda odeio essa tal reforma ortográfica!

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Poesia/71

O meu caminho torto (louco?)
cruzou com teu caminho roto
Numa noite em que meu coração
Estava desalinhado
Por causa da saudade
E de uma desilusão

Então, nossos caminhos tortos
Se uniram numa terceira via
E desde esse dia
Seguimos juntos
Ainda tortos
Mas retos
No amor.

Para Eduardo

domingo, 25 de julho de 2010

Crônica/17



Não sei se isso se encaixa exatamente no estilo "Crônica", mas bem, é assim que aparecerá aqui :) Ah, e hoje é dia do escritor! (por isso o tema...)

Escrevo

Escrevo.
Escrevo para contar o que vi e o que não vi.
Escrevo para dizer o que penso e o que não penso, para narrar, descrever, rimar, fazer rir, emocionar.
Escrevo o que ouvi, o que não ouvi e o que gostaria de ouvir.
Escrevo porque minhas mãos e minha mente pedem para brincar com as palavras. Escrevo durante a manhã, a tarde, a noite e também a madrugada.
Escrevo para exclamar, reclamar, observar ou perguntar.
Escrevo para os amigos e para os desconhecidos, para os vivos e para os mortos, para todos e para mim.
Escrevo cartas, postais, e-mails, contos, poesias, listas malucas e comuns.
Escrevo enquanto estou acordada e também enquanto estou sonhando.
Escrevo o que eu gostaria de ler.
Escrevo por instinto.
Escrevo porque é uma necessidade, porque me dá tesão.
Escrevo para dividir as idéias. Ou multiplicá-las.
Escrevo para ser lida.
Escrevo mentalmente – e muitas vezes a minha memória apaga o que escrevi.
Escrevo na areia da praia, em panfletos e na palma da mão.
Escrevo para dizer que tenho saudades.
Escrevo para ser lembrada.
Escrevo para espantar o tédio.
Escrevo para não fazer terapia.
Escrevo para exorcizar meus demônios.
Escrevo porque tenho paixão.
Escrevo porque é gostoso como tomar sorvete numa tarde quente.
Escrevo para contar a vida ou deixar que ela me conte.
Escrevo para me encontrar ou me perder, para me afirmar ou me criar.
Escrevo porque foi para isso que nasci e porque é o que amo de amor.
Escrevo para me sentir feliz.
Escrevo porque sou escritora.
Escrevo.

Chronicle/17 - I write

I write.
I write to tell what I saw and what I didn’t see.
I write to say what I think and what I don’t think, to narrate, to describe, to rhyme, to make somebody laugh, to thrill.
I write what I heard, what I didn’t hear and what I would like to hear.
I write because my hands and my mind ask for play with words.
I write in the morning, in the afternoon, in the night and in the dawn.
I write to exclaim, to claim, to observe or to ask.
I write for friends and for strangers, for alive and for dead people, for everybody and for me.
I write letters, postcards, e-mails, tales, poetry, crazy and common lists.
I write while I’m awake and while I’m dreaming too.
I write what I would like to read.
I write for instinct.
I write because it’s a necessity, because it turns me on.
I write to share ideas. Or multiply them.
I write to be read.
I write mentally – and so many times my mind erases what I wrote.
I write on sand beach, on pamphlets and on my hand palm.
I write to say I miss somebody.
I write to be remembered.
I write to frighten tedium.
I write for not to do therapy.
I write to exorcize my own demons.
I write because I have passion.
I write because is delicious like take an ice cream on a hot afternoon.
I write to tell life or let life tells me.
I write to find or lose myself, to affirm or create me.
I write because I was born to do this and it’s what I really love.
I write to feel happy.
I write because I’m a writer.
I write.