terça-feira, 30 de novembro de 2010

Microconto/53

Fim de tarde naquela praia bonita, onde ele tinha prometido levá-la várias vezes.
Assim que chegaram, ela logo correu para ver a praia, enquanto ele trancava a porta do carro. Quando ele chegou até a areia, ela estava sentada, nua, olhando para o mar. Tinha tirado tudo: a roupa, o biquíni e até mesmo o par de brincos e a aliança.
- Mariana, você enlouqueceu? Pode aparecer alguém!
Ela sequer se mexeu. Há quanto tempo seu corpo e sua mente não se sentiam livres... Há quanto tempo cedia apenas à vontades alheias... Há quanto tempo... Tantas coisas... Então, quebrando a expectativa do noivo, que a olhava boquiaberto, Mariana disse apenas:
- Silêncio. Estou tentando respirar.


(às vezes, é preciso se despir de tudo - literalmente - para se encontrar ou se reencontrar um pouco consigo mesmo).

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Microconto/52



Despediram-se debaixo de um temporal.
Enquanto André falava, Olga ouvia e chorava. Mas era um choro contido, que misturado à chuva, não o deixou perceber o quanto ela estava infeliz.
E foi assim que André se foi, triste por ter que partir e triste também por achar que não era amado.

Fonte da imagem: Nightmaremon album

domingo, 28 de novembro de 2010

Microconto/51

Sonhou que tinha perdido as chaves. Ao regressar para casa, teve que quebrar a janela. Ao entrar, deparou consigo mesmo, deitado na cama. Reconheceu-se, claro, mas não pôde deixar de perguntar:
- Quem é você?
- Eu sou você - respondeu o que estava na cama, com um sorriso irônico. - Mas eu não perdi as chaves.
Confuso, tentou entender porque tinha se tornado dois. Então, acordou.
E confuso permaneceu. Pois, ao acordar, não sabia quem tinha se tornado: aquele que tinha perdido as chaves (de si) ou aquele que, senhor de sua morada, descansava despreocupado sobre a cama.

(Há uma citação dela que aqui se aplica).

sábado, 27 de novembro de 2010

Microconto/50

Começou limpando o guarda roupa. Depois, passou para a mesa de cabeceira.
Logo, estava limpando a casa inteira. Não só limpava, como também trocava as coisas de lugar. Dentro de si havia uma imensa vontade de mudança e de se livrar de tudo que não fosse mais necessário.
E foi assim que, findo o trabalho dentro de casa, ele se mirou no espelho e procurou por algo para mudar em si mesmo. Olhou, olhou e de repente seus olhos se fixaram num ponto. Foi então que, com muito esforço, ele começou a abrir a mente e a limpar seus pensamentos.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Microconto/49

Descoberta

Dormiu com uma dúvida e acordou com uma certeza: o caminho duplo era o que lhe interessava.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Crônica/30

Olhares - parte V

Chegou falando comigo em italiano e eu me esforcei para compreendê-lo e falar também. De repente, em bom português, ele disse:
- Sou de Minas Gerais.
Eu ri, ele também.
Disse que morava na Itália há 70 anos e comentou:
- É muito tempo, não é?
Em seguida, confessou:
- Eu tenho 79 anos já.
Antes de ir embora, me aconselhou a treinar o italiano:
- Se não tiver com quem conversar, faça como eu: fale sozinha. Pode ser na frente do espelho.
E se despediu olhando fundo para mim, com aqueles olhinhos verdes. Disse, quase num murmúrio:
- Me desculpe, mas você é tão bonita...
Eu sorri, agradecida e surpresa. E vi que dentro daqueles olhos, de repente, brilhava forte a juventude de uma vida inteira.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Microconto/48

Desde a mudança para aquele prédio, Rafael ouvia sempre um violino no apartamento ao lado. Noite após noite, dormia embalado pela música suave que a janela vizinha lhe soprava.
Uma noite, porém, o violino não se manifestou.
Rafael não conseguiu dormir. Então, sem pensar muito, foi até a porta vizinha e apertou a campainha. Quando o vizinho abriu a porta, com uma expressão viva de solidão, Rafael disse apenas:
- Eu me importo.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Microconto/47

Por um momento, o chão sumiu e Vívian não sabia se iria cair ou flutuar. Na dúvida, agarrou-se mais forte àquele que estava à sua frente.
Depois, abriu os olhos nervosamente. Ele lhe estendeu a mão.
Sorridente, ela imitou o gesto e seguiram ambos de mãos dadas, já fora da escola.
Ele não sabia ainda e ela demoraria anos para contar, mas aquele tinha sido seu primeiro beijo.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Microconto/46

Estela amava, mas não era amada.
Imaginava que a separação seria mesmo inevitável, mas ainda assim, insistia no relacionamento.
Numa noite, ele voltou tarde mais uma vez e ela iniciou uma discussão, que ele encerrou aos berros, alegando que precisava dormir, pois teria que acordar cedo no dia seguinte.
A contragosto, ela se calou. Mas por dentro, não calou as mágoas. E começou a chorar. Chorou como nunca tinha chorado antes.
Quando amanheceu, ele se surpreendeu: ela não estava na cama. Procurou-a pela casa e nada. As roupas continuavam lá, tudo estava igual. Mas ela, onde estaria? Enquanto pensava, sentou-se na cama e só então percebeu o colchão molhado de um lado só. Estela permanecia ali, mas aos poucos se evaporava; tinha se desfeito em lágrimas por aquele amor.

domingo, 21 de novembro de 2010

Microconto/45

Tinha o dom de rascunhar a vida. Descobrira por acaso e o dom se tornara também seu vício.
Bastava escrever o que gostaria de tirar do seu passado e voilà!, estava feito.
Foi bom, durante um tempo. Mas um dia, desistiu de mudar as coisas. Viu que a vida, sem erros, sem memórias e com todas aquelas manchas de rasura, tinha simplesmente perdido a graça.

sábado, 20 de novembro de 2010

Microconto/44

Pôr do sol no Arpoador e Humberto estava lá, como um bom admirador. O lugar estava cheio. Casais se abraçavam, crianças corriam para lá e para cá, turistas tiravam fotos.
No meio desse cenário, ele a viu. Estava em pé numa das pedras, com os braços abertos. Logo, ele começou a fitar aquela moça de longos cabelos castanhos, em seu vestido azul celeste.
Ela parecia concentrada, mas subitamente virou-se e o viu. Humberto assustou-se, não esperava ser notado. Por um momento, ela abaixou os braços e lhe sorriu. Humberto sorriu de volta. E foi nessa hora em que ela tornou a abrir os braços e levantou voo, plena, por sobre o mar.
Humberto olhou ao redor para ver a reação das pessoas. Entretanto, ninguém além dele tinha visto aquele anjo voltando para o céu.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Microconto/43



Priscila não relaxava nunca - ou pelo menos não se recordava de ter feito isso alguma vez.
Tentou de tudo: happy hour com amigos, massagens e terapias diversas; nada funcionava.
Até que um dia, um amigo deu-lhe uma sugestão. Disse para Priscila começar com algo simples: espreguiçar-se ao acordar.
No dia seguinte, após a conversa com seu amigo, Priscila acordou e se espreguiçou. De repente, viu espantada quando seus braços alcançaram o teto e suas pernas atingiram a porta do quarto. Esticava-se, esticava-se sem parar.
Logo, ela se viu obrigada a sair de casa, pela falta de espaço. Estava relaxada, afinal. Talvez relaxada demais, mas o que isso importava no fim das contas?
Depois desse dia, Priscila nunca mais deixou de se espreguiçar. Ao mesmo tempo em que tinha finalmente conseguido relaxar, notou feliz o quanto tinha também deixado de se encolher.

Fonte da imagem: Quero enfeitar você

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Microconto/42



Linda e distante.
Ele a admirava, a amava, mas ela só dedicava seu tempo a pessoas importantes, cheias de posses. Ele a chamava para tomar sorvete, ela sempre negava, inventando pretextos diversos. Enquanto isso, ele levava sua vidinha sem gosto. Ela era o sabor que ele não podia ter.
Passados os anos, reencontraram-se. A vida dele estava diferente. Ele se tornara um senhor. E agora tinha uma vida melhor, graças a seus esforços. Já ela, antes linda e distante, era agora uma senhora amável e falante.
Ele a reconheceu dentro daqueles olhos verdes; ela, o sabor que, apesar de tudo, ainda lhe faltava. Feliz por finalmente ter a atenção dela, ele não teve dúvidas: chamou-a para tomar um sorvete. Depois de 50 anos, ela aceitou.

Fonte da imagem: Blog Cem Dormir

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Microconto/41



Eu venho sempre aqui, nem sei desde quando. Você também? Nossa, como nunca nos falamos antes?
Sabia que eu posso ser qualquer pessoa? Posso ser tudo aqui, até eu mesmo. Mas ser eu mesmo é a última coisa que quero.
Você quer ver uma foto minha? Ah, sei, antes você quer saber como eu me chamo, claro... Prazer, meu nome é Virtual.

Fonte da imagem: Megaclick Informática

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Microconto/40



Quando acordou, a Vida continuava ali.
A Morte esteve apenas de passagem.

(À minha inspiração - Augusto Monterroso).

Fonte da imagem: Fazada

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Microconto/39

Ela o esperava, ansiosa.
Um dia, ele lhe bateu à porta. Era um vendedor. Mas ela o despachou, disse que não precisava comprar nada.
Ele insistiu. Apresentou-se como seu colega de trabalho e lhe convidou para um café. Mas ela alegou cansaço como desculpa."Deixa pra próxima".
Ela começou a reclamar que ele não aparecia. Ele não sabia como dizer que ela é que não o enxergava.
Até que um dia, depois de ser professor, vizinho, amigo do amigo e dentista, ele se cansou. Decidiu que se ela o queria tanto por perto, teria que aprender a reconhecer de onde ele poderia surgir.
Mas ela não conseguiu tal feito. E terminou seus dias achando que nunca tinha recebido a visita do amor.

domingo, 14 de novembro de 2010

Poesia/112

Alice
Por um triz
Eu sei
A gente deixou de ser feliz

Foi bom por um momento
Que durou uma semana ou um ano
Mas agora vejo
Que tudo não passou de engano

Eu não reguei as flores
Você vivia cheia de dores

Eu não lavei a louça
Você de repente ficou surda

Eu dormi no sofá
Você desandou a reclamar

Eu fui por ali
Você seguiu por lá

E a gente um dia
Sem encanto
Sem tato
Desistiu do verbo amar.

sábado, 13 de novembro de 2010

Crônica/29

Rotina

Acordo e me arrumo rapidamente. Tenho destino certo e uma missão: chegar no horário marcado.
Para isso, enfrento uma batalha; uma batalha por espaço. Além do esforço envolvido em minha missão, também preciso contar um pouco com a sorte, e a sorte, se você não sabe é assim: um dia está com você, no outro dia, não está.
Entro num ambiente fechado, com pouco ar e muitas pessoas. Gente que me empurra, me pisa, e, claro, me aperta por todos os lados. Todos. Mal posso respirar.
Chego ao meu destino, salva, mas não muito sã. A mente já está cansada e o dia mal começou. Eu estou com cheiro de outras pessoas. Meu cabelo está desarrumado, minhas roupas estão amassadas. Acabo de ter mais uma experiência única e um tanto íntima com um bando de pessoas desconhecidas.
Algumas horas após o embate, é chegado o momento de fazer novamente o que faço todos os dias (para chegar ao trabalho e para voltar ao conforto do lar): pegar mais um metrô lotado.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Haicai Guilhermino/05

Não sou valente
Mas ao estar contigo
Vou pra frente.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Crônica/28

Olhares - parte IV

Morava na rua e perambulava sempre pelo bairro Benfica (em Fortaleza) e suas adjacências. Quando eu trabalhava com telemarketing, sempre o via na hora de voltar para casa. Ele costumava ficar no ponto de ônibus em frente ao Cefet, na Avenida Treze de Maio. Eu sempre o encarava e vice-versa. E isso me chamava a atenção, porque eu nunca tinha visto um morador de rua que encarasse as pessoas do jeito que ele encarava.
Certa vez, lhe ofereci um chocolate – que ele educadamente recusou. Noutra ocasião, ele me sorriu – aliás, nesse episódio paira certa dúvida, pois não sei se o sorriso foi direcionado a mim ou se ele sorriu por outro motivo. Por várias vezes eu o via parado em alguma esquina, com os olhos distantes, perdidos.
Uma noite, aconteceu o inesperado: ele falou comigo. Eu passei e ele murmurou “boa noite”. Fiquei tão surpresa que não consegui responder. Parecia tão simples, era só responder a mesma coisa, mas a minha voz não saiu. Engraçado é que eu sempre quis que ele puxasse assunto comigo e então, quando ele o fez, eu não consegui falar nada.
Algum tempo depois, eu estava voltando do trabalho, tarde da noite, e ele me parou para pedir fósforos. Falei que não tinha. Ao chegar em casa, não tive dúvidas: fui até a cozinha, peguei alguns fósforos e um doce de goiaba e voltei ao lugar onde o tinha visto. Ele ainda estava lá, quietinho. Ao me ver, disse novamente:
- Você tem um fósforo?
Respondi:
- Agora eu tenho.
Junto com a caixinha, lhe entreguei o doce - e dessa vez ele não recusou minha oferta.
Às vezes, ele aparecia de barba feita, cabelo cortado e um aspecto mais limpo, como se tivesse tomado banho recentemente. Um dia, comentei com uma vizinha sobre o sujeito e ela me esclareceu:
- Ah, eu sei de quem você está falando. É o Nem. Ele tem família, tem casa, mas prefere a rua. Dizem que foi por causa de uma mulher que ele ficou assim.
Depois que ela me contou isso, fiquei um tempão com o olhar perdido - talvez como o do Nem - pensando no que um amor não correspondido é capaz de fazer com a vida da gente.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Crônica/27

Carta a um ex-amor

Às vezes, vejo nossas fotos e nos vejo também, mentalmente. Eu te procuro e te encontro, mesmo que você não saiba, afinal existem várias formas de se encontrar alguém.
E assim, eu te vejo e te encontro na minha mente e te digo coisas embaralhadas; coisas que agora tento colocar em ordem nesse escrito.
Pra começar, eu te vejo do jeito que gostava - sem bigode, sem barba e com aquele cabelo louco. Você parecia o Freakzóide e eu adorava isso. Gostava do seu cabelo, do seu cheiro, do seu beijo e do seu gosto. Como é possível que eu nunca tenha te dito isso?
Na verdade, eu sei como é possível: eu era uma boba. Ainda sou, é verdade. Mas só agora consigo reconhecer o quanto tive receio de me entregar através das palavras e mesmo através de gestos.
Talvez não valha mais a pena falar sobre o assunto e lembrar disso, mas é passado, já aconteceu, então que mal tem? Que mal há em lembrar de um par que não deu certo?
Falando nisso, demos certo ou errado? Bom, estive pensando e acho que demos certo separados e errado juntos. Melhor: demos certo juntos, por um tempo.
Ah, e que tempo! Foi um período tão gostoso! Lembro de coisas que você disse, de coisas que eu disse e sei que já não me recordo de tudo, pois a memória voa, tal qual o tempo. Ah, e quantas coisas eu deixei de te falar, quantas!
Mas não escrevo para falar disso. Tampouco para narrar lembranças. Hoje, ambos estamos unidos a outras pessoas, mas não apago você da minha mente. Porque ex-amor, por mais que se tente, não dá pra apagar. E isso finalmente me remete ao maior objetivo da carta, que é o de te confessar, o de te dizer o que eu nunca ousei dizer - que um dia eu te amei.

(Para N).

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Conto/15

Ao ver o garoto, Glória se perguntou quantos anos ele teria. 14? 15, talvez. Não mais que 16. As mocinhas logo se insinuaram. Todas queriam o rapazinho como cliente. Mas foi para Glória que ele apontou.
Glória, com seus 42 anos, era a dona do cabaré. Era bonita e ainda tinha um corpo desejável, mas não tanto como suas funcionárias. Ela espantou-se quando ele disse que sim, era mesmo ela quem ele queria. Mas logo pensou: "Bobagem. Ele deve querer uma mulher mais velha só para saber como é". Tentou ainda dissuadi-lo da ideia, porém ele estava irredutível.
Então, ela cedeu. O rapaz era uma graça, poderia até ser divertido. "Vem comigo", ela chamou.
Ao final, Glória ainda estava surpresa. Afinal, por que um garoto como aquele tinha ido a um cabaré e escolhido justamente a mulher mais velha do lugar? Ela não resistiu e perguntou:
- Rapaz, posso saber porque você me escolheu? Você viu as mulheres mais jovens...
- Eu não queria mulheres mais jovens. Queria alguém como você. Mas as mulheres mais velhas não me dão crédito. Aí, eu soube desse lugar e de você. Tinha que vir. Não era só pela experiência... Era por gosto mesmo. E gosto não se discute, Glorinha.
"Glorinha". Há anos ninguém a chamava assim. Era verdade, gosto não devia ser discutido - especialmente se a tinha tratado bem, tinha pago sem reclamar e mais: tinha feito com que ela se sentisse mais leve... e mais jovem.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Poesia/111

Procura-me por aí
Quando eu tiver que partir

Procura-me no vento que sopra
No orvalho ou na aurora

Na música ou nas páginas de algum livro
Na Lua cheia ou nas nuvens
(elas sempre foram meu melhor abrigo)

Procura-me em telas coloridas
Em cartas de amor e afins

Procura-me dentre os girassóis
Ou entre lençóis cor de marfim

Procura-me com paciência
E em tudo isso, poderá me ver

Pois mesmo quando eu tiver partido
Dentro de quem me ama, eu irei viver.

domingo, 7 de novembro de 2010

Poesia/110

O amor pode ser tão inconstante
E também pode ser nosso
Mesmo que por um instante
Basta tentar

Então, vem!
Me dê a mão
Vamos voar
Tirar os pés do chão

Você tem medo
E eu também!
Mas e daí, meu bem...
E daí...

Então, vem!
Põe em mim
Teu coração
Que o meu já está em ti

Vem, me diga sim
Vamos viver
Levantar vôo
Num balão
Pegar a estrada

Vem
Me dê a mão
Que eu te quero tanto
Como meu par
O bem querer é o que
Iremos conjugar.

sábado, 6 de novembro de 2010

Poesia/109

Eu quis um amor todo grande

Eu quis um amor todo grande
E todo cheio de clichês
Eu quis que fosse importante
Como um grande amor tem que ser
Não queria hora marcada
Nem o tédio de ver tv
Mas pra você:
Tudo ou nada.
E eu não sei me prender
Meu corpo é seu e de todos
O meu querer é tão vão
Mas minha poesia insistente
Ganhou seu coração
Era sorvete na praça,
Graça junto ao tesão
Você desejava sininhos
E eu, o mundo nas mãos
Não podia mesmo dar certo
Paixão ardente não mantém o tom
E o que eu lhe digo, entretanto,
É que enquanto durou
Foi tão bom!

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Poesia/108

As tardes
Sem mãos dadas
Solitárias
Me abraçam
Me agarram
Farejando companhia.

As tardes
Tão caladas
Tão sombrias
Me encaram
Me sorriem
Farejando simpatia.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Conto/14

Júlia queria porque queria ser escritora. Porque era seu grande sonho, porque não se imaginava fazendo outra coisa, porque era o que queria da vida. Mas faltava-lhe um detalhe crucial: intimidade com as palavras.
Tentou de tudo para que estas lhe viessem e se tornassem suas amigas. Primeiro, seguiu os conselhos de quem já escrevia e passou a ler bastante, para aumentar o vocabulário e criar suas próprias ideias. Depois, passou a dedicar uma parte de seu tempo ao exercício da escrita.
Mas não adiantava: por mais que Júlia chamasse, as palavras não respondiam aos seus apelos. E quando vinham, tudo que ela escrevia não lhe parecia bom o suficiente. Ela queria sempre mais e mais palavras. E, embora seus amigos tentassem incentivá-la, a verdade é que eles mesmos não a achavam exatamente uma pessoa com o dom da escrita.
Então, Júlia apelou. Valia tudo para que as palavras se aproximassem. Inclusive, rituais estranhos e obscuros, que lhe custavam caro. Os amigos achavam que ela tinha enlouquecido, tamanha era sua obsessão. Sabiam que aquilo ainda acabaria mal. Tentaram, então, dissuadi-la da fixação que era escrever. Porém, era tarde demais.
De todos os preços, o maior foi pago quando, depois de todos os seus esforços, as palavras se cansaram dela e decidiram lhe aparecer todas de uma vez só.
Primeiro, ela não conseguiu controlar a mão, que escreveu freneticamente por uma noite inteira. Depois, quando a mão já não respondia a nenhum estímulo, as palavras lhe invadiram a garganta e ela falou por horas, sozinha, até perder o fôlego. Por último, ela já não conseguiu mais respirar. E assim, perto da inconsciência provocada pela falta de ar, foi que Júlia percebeu que as palavras não costumam vir para quem as quer, mas para quem elas escolhem. Por não ter se conformado, Júlia recebeu a fúria das palavras e ali, em seu pequeno apartamento, foi sufocada por elas, junto a uma pilha de rascunhos.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Trova/01

Brava, você suspira
Então, eu lhe trago flores
Foi só mais uma briga
Encerrada com odores!


(E viva todas as formas de reconciliação).

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Poesia/107

Hoje todos choram seus mortos
Com lágrimas, velas e flores
Choram e rezam por eles
E também para aplacar suas dores
De saudade e de amor
Hoje todos se recordam de cada partida
E tão triste quanto chorar por quem se foi
É ver quem ficou seguir morto em vida!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010