terça-feira, 6 de julho de 2010

Conto/11

Nascer de novo, em outro lugar

Depois de tanto tempo fora, resolvi voltar. As coisas tinham mudado muito. Olhei as fotos do Centro, que eu mesma havia tirado pouco antes de partir, como se quisesse levar um pedaço da cidade comigo. É, eu queria mesmo levar um pedaço. Se eu não sabia para onde ia, ao menos sabia de onde vinha e isso me confortou ao dar início à minha busca.
Fiz comparações entre as fotos e o que vi. Alguns prédios reformados e finalmente tombados; outros, caindo aos pedaços, decadentes, mal-cuidados. Exatamente como as pessoas: algumas mudaram para melhor, enquanto que outras pareciam vagar pela vida, sem paixões, sem sonhos. Com estas últimas, o tempo foi implacável. Estavam secas, maltratadas, sem vitalidade. Senti que não precisava me incomodar com isso se nem elas se incomodavam, mas foi inevitável olhá-las sem sentir dó.
Circulei pela cidade, sozinha na maior parte das vezes. As pessoas tinham construído um longo caminho sem que eu estivesse por perto, não podiam me dar tanta atenção. E eu não queria pedir atenção. Não me parecia certo exigir a presença delas por conta do meu retorno. Saí da convivência de todas na primeira chance que tive. Não era justo pedir um pouco do tempo delas, quando eu havia reservado meu tempo para me manter longe.
Eu gostava de muitas dessas pessoas, mas apenas conhecida do restante. Mantivemos contato durante esses anos. Mas eram sempre as mesmas perguntas: “Não vai casar?”, “Não vai ter filhos?”. No mais, era fácil desejar felicidades nos aniversários, um bom ano novo, melhoras, parabéns pela promoção, pêsames, saber das novidades, contar o que me ocorria também. Embora eu me sentisse sozinha às vezes, não poderia voltar. Não queria voltar.
Assim, desenvolvemos uma estranha intimidade ao longo da vida. Com algumas dessas pessoas, a intimidade era diferente, mais real, apesar da distância. Às vezes, eu conseguia senti-las por perto. Mesmo assim, nem dessas pessoas eu tinha o direito de querer atenção.
Rodei o mundo o quanto pude. Não suportava a idéia de morar muito tempo na mesma localidade. Era simplesmente terrível ouvir os passos do dia-a-dia. Não conseguia me sentir bem com a calmaria da estabilidade e partia outra vez.
Antes de completar vinte anos, comecei a sentir que não pertencia à minha terra. O fato de nascer nela não nos tornou tão íntimas como devia. A cidade era boa, acolhedora, mas já estava incrustado: eu precisava ver o mundo e encontrar um lugar onde me sentisse realmente em casa. Mas as partidas e chegadas que se sucederam não serviram: nunca encontrei o tal lugar.
Tinha esperança de voltar e perceber que precisava deste período fora, para notar que minha cidade era o que eu tanto queria. Agora, depois de rever as paisagens e as pessoas e de sentir o cotidiano que se instalou sem minha presença, vi que meu lugar realmente não é este. Nunca foi e não é agora que será. A cidade me recebeu de modo frio. Pareceu-me nunca ter morado nela. Os habitantes me eram muito mais estranhos. O fato é que minha terra natal, como eu conhecia, só existe nas lembranças. Agora, sou uma turista em terras conhecidas.
Rumo à rodoviária, eu pensei se existiam outros iguais a mim por aí. Seres que não pertencem a lugar algum. É doloroso sentir-se assim. O mundo é meu, eu o ganhei! Entretanto, jamais fui do mundo. Nem ao menos um punhado dele conseguiu me segurar. Nenhum chão me cativou o suficiente.
Ainda me sinto jovem, na verdade, ainda sou jovem, mas meu corpo dá sinais de cansaço, pede que eu não viaje novamente. Porém, a mente clama. Apronto as malas. Não sei aonde vou, mas sei que vou.
Na rodoviária, escolho meu novo destino ao acaso. Quero ficar perto do meu primeiro ponto de partida, ao menos desta vez. Tenho economias para investir num pequeno negócio, talvez isso consiga me prender até o fim da vida. Sinto vontade de criar raízes, ainda que seja por obrigação e não por prazer, como eu sonhei. O lugar não tem mais tanta importância...
Contudo, minha esperança se renova. Pode ser que este destino, escolhido ao léu, seja enfim o lugar que eu possa chamar de lar. Tenho necessidade de me aquietar; parece que isso já não me incomoda mais. E, se nem nesse novo destino eu me sentir em paz, não vou mais fugir. O jeito é esperar. Esperar pra nascer de novo, em outro lugar.

2 comentários:

Wander Shirukaya disse...

Interessante, mas este conto me parece carecer de um "algo mais".
^^

Sâmia disse...

"É a vida, é bonita e é bonita..." ;)