segunda-feira, 5 de abril de 2010

Crônica/03

Chuva

A chuva me fascina desde que me entendo por gente. Não dava outra: quando começava a chover mais forte, eu pedia para sair de casa e me enfiava debaixo de todas as bicas que encontrava, pulava e corria até não poder mais.
Quando minha mãe implicava e não me deixava sair de jeito nenhum, até que não era tão ruim ficar em casa. Mas também só sossegava quando visse a chuva e pudesse senti-la, um pouquinho que fosse. Então, eu ia para a cozinha, para a antesala ou para perto das janelas que ficavam entreabertas.
Sem dúvida, o melhor lugar para se apreciar o espetáculo era a cozinha. Eu sentava no chão frio e me dividia entre dois mundos: dentro e fora, seco e molhado, cotidiano e casual. Era gostosa demais essa mistura! Podia ouvir os barulhos comuns da cozinha e ver a chuva transformar a terra do quintal em lama.
A fascinação não diminuiu com o tempo. Numa noite dessas, fui com um amigo até o ponto de ônibus. Ele comentou que ameaçava chover; eu retruquei que nem me importaria se isso acontecesse, pois queria mesmo tomar um banho de chuva.
E foi o que aconteceu. Assim que ele foi embora, passou um vento forte. Quando atravessei a rua, as primeiras gotas me alcançaram.
No caminho, esqueci a pressa que Deus me deu e aproveitei o quanto pude. Porém, de uma forma diferente de quando eu era criança. Olhei para o céu e ri. Coloquei a língua para fora. Ri de novo e caminhei de olhos fechados. Depois, senti vontade de chorar; não de tristeza, e sim de alegria, como já não chorava há tempos.
Lágrimas e chuva se fundiram. Eu me senti encantada tanto quanto me sentia na infância, mas agora tinha idéia de como chamar isso. Foi esplêndido estar, ao mesmo tempo, embaixo, acima e ao lado da chuva. Aquela água toda pareceu me penetrar e lavar minha alma.
Cheguei em casa com as roupas ensopadas. Logo, troquei-as pelo pijama. Mais tarde, sem conseguir dormir, fui até os fundos da casa. Ainda chovia. Não resisti e coloquei as mãos do lado de fora. Senti a alegria me invadir de novo. Talvez a chuva me pareça assim tão maravilhosa porque me dá uma sensação de harmonia, de calma. É, é isso mesmo: calma.
Minhas mãos debaixo d’água foi o modo que encontrei de me despedir dessa chuva. Adormeci com o barulho dela me ninando nessa noite dominical. Dormi leve, pensando que no dia seguinte, tudo seria melhor.

domingo, 4 de abril de 2010

Conto/04

A mulher mais feliz do mundo

Eu nasci no corpo errado. Passo a maquiagem do meu estojo especial. Essa é a “maquiagem da fé” – costuma funcionar quando eu quero que me achem bonita: eu tenho fé e aí aparece alguém. Mas esse batom aqui não dá, é horrível! Por que eu comprei isso? É melhor um gloss, é mais discreto.
Parece que meus seios estão fora do lugar. Eu pareço fora do lugar!
Não entendo como ele pôde me chamar para sair. Ele é bonito, inteligente, tem um trabalho interessante...
É, eu pareço sem auto estima. Mas isso é culpa da vida. A vida me deixou insegura. Eu pareço uma tonta...
Vou passar um perfume suave. Será que ele vai gostar? E essa calça, não sei não. Me faz parecer sem formas. Próxima roupa.
O que é que ele quer comigo afinal? Uma noite? Uma hora? Será que ele pensa que só porque eu aceitei sair com ele eu sou fácil? Mas ele sabe que eu trabalho no salão, me conheceu lá mesmo. Ele sabe que eu sou uma pessoa honesta – pelo menos eu tento ser. Ele sabe que eu me sustento cortando e pintando cabelos e sabe também que eu não tenho família. Todos me viraram as costas.
Ele sabe quem eu sou, certo? Melhor: o que eu sou. Ele tem consciência, claro que tem. Um homem não pode se enganar assim!
Ai, essa saia é horrível. Não tenho nada para vestir. E essas blusas estampadas, que breguice. Já sei, vou com uma saia longa.
E ele... Ah, que olhos, que pernas, que boca. O sorriso é de um deus. Ele veio só para um corte, depois voltou, outro corte. E começou a vir sempre e puxou conversa comigo. Por que eu fui conversar com ele? É, foi por puro profissionalismo. A gerente diz que para conquistar o cliente tem que ser simpática – "se ele quiser conversar, converse; se não quiser, fique quieta".
Mas ele quis mais do que uma conversa. Quis saber a que horas eu estaria livre, se sairia com ele para um drink e um jantar. Que homem chique: não me chamou para uma cerveja num boteco qualquer. Me chamou para tomar um drink e jantar com ele.
Não, não vou me iludir. Vai ver ele me chamou só para fazer amizade. É isso, ele quer ser meu amigo. É óbvio. É óbvio?
Nossa, como eu estou atrasada! Tomara que ele não fique impaciente e vá embora. Tanto tempo que eu gastei caprichando no visu.

- Oi.
- Oi. Nossa! Você está linda.

Eu não posso com um elogio, ainda mais de um homem desses. Vou morrer! Mas vou morrer feliz.

- Desculpa o atraso. Saí tarde do salão.
- Tudo bem. Vamos pedir um drink?

Eu estou com uma pergunta engasgada. Preciso saber para não cometer erros. Preciso saber o que ele quer comigo.

- Antes de pedir... Eu quero perguntar uma coisa.
- Pode perguntar.
- Você me chamou para sair... Você sabe, não sabe?
- Sei o que?
- Sabe que eu não sou como as outras. Tem gente que se engana, mas eu quero saber se você sabe.
- Sei, por isso chamei você.
- Mas você sabe o que eu sou?

Ele pegou na minha mão. Ai, eu vou ter um troço.

- Eu sei que você é uma moça maravilhosa no corpo de um rapaz. Mas eu não me importo. Quero você assim.

Todas as minhas preocupações se foram. Ele me quer! Eu nem sei direito o que responder. Dou um sorriso e digo:

- Agora, eu sou a mulher mais feliz do mundo.

sábado, 3 de abril de 2010

Poesia em outras línguas/01

Poetry in others languages/01

Um poeminha com locuções em latim :)
A tradução está logo abaixo ;)

A little poetry with latin phrases :)
It's translated, just go down ;)

Nunc est bibendum
Est mirable visu
Nosce te ipsum
Est mirabel dictu
Mutatis mutandis,
Nec plus ultra,
Ne quid nimis.


[Está na hora de beber
Admirável é de se ver
Conhece-te a ti mesmo
Admirável é de se dizer
Mudando o que deve ser mudado
Não mais além
nada em demasia].

[It's time to drink
Admirable to see it
You have to know yourself
Admirable to say it
Changing what has to be changed
Not more than this
Not too much]

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Poesia/14

Choveu

Hoje choveu dentro de mim
Também choveu lá fora
Choveu porque eu sou covarde
E porque tinha que ser assim

Foi uma chuva fina
Tanto a de lá quanto a de cá
Choveu porque foi o fim

Paralelo ao meu alívio
Talvez eu lhe dissesse sim

Mas seria um sim comedido
Foi melhor ele não sair
Foi melhor que a rotina voltasse
Foi melhor que fosse o fim.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Poesia/13

Primeiro de abril

É a perna curta
E o nariz grande
É Pinóquio
Sem o grilo falante

É tremer a voz
Por um simples instante
E dentro do bolso
Tem bilhetinho de amante

É a tarefa mastigada
É o cachorro sem banho
É a verdura cuspida
E debaixo do sofá, o ranho

É gol com a mão
Que não se diz
É um “eu te amo”
Que não é feliz

Foi apenas um drink
Num encontro informal
Eu fumei sem tragar
Pois não seria legal

Ela é necessária?
Me diga você
De quantas mentiras
Precisa para viver.